Arquivo do mês: agosto 2011

Emoções que o tempo não apaga

Dizem que a morte nos envolve quando deixamos de olhar para o presente do presente e do futuro, quando nos voltamos apenas às saborosas lembranças, ornadas pelos melancólicos sons de tempos dourados.

Tive desvelados mistérios, curiosidades, intrigas, fatos, em um mergulho de cavernas subterrâneas em meio a uma sexta-feira ordinária, de cenário noturno, sombrio, gélido, de alamedas, invertidas e solitárias, sutilmente umedecidas pela tênue garoa paulistana de invernos pretéritos, presentes e futuros.

Caminho a passos largos sob firmamento sem pérola, sem vaga-lumes, ultrapasso a porta giratória, percorro o lobby, deserto, e ouço conversas distantes provindas do piano-bar, desço alguns lances de escada rolante, seguindo as placas que me indicam o caminho, à minha esquerda está um senhor de cabelos escassos, bigode bem aparado, vestido impecavelmente em um terno escuro com riscas de giz bem cortado. Oferece-me uma taça de champanhe, cuja garrafa repousa em meio ao gelo, que recuso e agradeço. Adentro a uma antessala retangular com três mesas, ornadas com arranjos de flores, e o mesmo número de cadeiras em cada uma delas, dispostas por toda a extensão do ambiente, ostentando dois quadros, que retratam a contemporaneidade urbana em cores vivas, em sua parede principal, e outro menor, abstrato, exibido no lado oposto. Ao fundo, dois sofás em couro preto acomodam casais que conversam enquanto aguardam o início da apresentação. Transpasso o recinto e chego ao auditório, cujo solo é ornado por um elegante carpete vermelho com detalhes em cor de ouro, e as cortinas são aveludadas em tom grená, acomodo-me confortavelmente na poltrona N12 e aguardo alguns instantes; aquelas abrem-se e permitem o acesso da plateia, ainda com lugares desocupados, à banda disposta em uma estreita porção de palco ao lado direito dos espectadores.

Surgem os primeiros acordes e desabrocha, de cordas e de sopros, Cole Porter em Night and day. O negrume recompõe-se, sendo rompido, em seguida, por um feixe de luz que dispõe em evidência uma típica mesa de cafés parisienses, vive-se o ontem, na atmosfera, na decoração, nas pessoas, nos pensamentos, no Auge. A história personifica-se e gaba-se de seus feitos, cantando os sucessos (…), sou transportado em imagens, em sons, pelos anos oitenta, em lugar cativo nas apresentações seletas de monstros, como Frank Sinatra, Tom Jobim, Johnny Alf, Edu Lobo, Taiguara, Pixinguinha, Michel Legrand, Bobby Short, Alberta Hunter, Julio Iglesias, Lionel Hampton, Chico Buarque, Paquito D’Rivera (…), cada qual com sua magia, fortificando as fundações desse que foi um templo cultural cujo requinte fora degustado a cada bom dia, a cada serviço, a cada acorde dedilhado entre a São Carlos do Pinha e a alameda Campinas.

Entre cilindros, arrepios; diamantes cujos quilates são incontáveis, e cujos brilhos assemelham-se às mais potentes estrelas do cosmos, eram devorados pelas janelas d’alma a cada nova nota. Emoções que o tempo não apaga. Emergi após cento e vinte minutos de êxtase, e enquanto as cortinas cerram-se Sinatra canta As time goes by, com um cigarro em sua mão esquerda, com o microfone dourado em sua mão direita, com a gravata borboleta deslocada, já ao final do show, escorado em um banco, com a tranquilidade peculiar de uma apresentação durante uma reunião entre amigos em sua sala de estar na Nova York que tanto cantou em suas músicas, dominando a todos os presentes naquele momento e em outros.

Aplausos (…).

Levanto-me e, ao fundo, está sentado um senhor, com fortes marcas de expressão e solitário, pelo menos naquele instante, em sua poltrona, apartado do restante do público que contemplou o espetáculo naquela noite fria. A plateia esgota-se sem entender as razões que o fazem manter-se estático. Com olhar distante, em seu teatro, dentro de seu hotel, Henry Maksoud digere cada estrofe cantada, a cada sexta-feira dos últimos seis anos, no show de suas realizações, revivendo momentos que o mantêm preso há trinta longos ciclos em emoções inesquecíveis de noites de gala; e ele continua lá, olhando para aquele palco vazio, já escuro, despedindo-se, por alguns dias de sua vida, até a próxima apresentação.

 

Eduardo Candido Gomes

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Dos desastres da colonização ao genocídio de Ruanda

Quando o debate gira em torno do Continente Africano, existe a certeza de que temas como violência, intolerância, corrupção e miséria serão abordados; é impossível, pois, discutir ações ocorridas no presente e quais as melhores medidas a serem tomadas para evitá-las no porvir, sem que antes entendamos a construção pretérita daquela sociedade em foco.

A análise de Ruanda não é diferente. País localizado no centro da África, cuja capital é Kigali, faz fronteiras com Uganda, Tanzânia, Burundi e República Democrática do Congo. Por volta de meados do século XIX, era dividido majoritariamente por duas etnias: os tutsis e os hutus. Era regido por uma monarquia composta por vassalos da etnia tutsi, a minoria entre os dois grupos.

Em 1890, durante a Conferência de Bruxelas, foi definido que aquele território seria ocupado pela Alemanha, recém-unificada, cujo processo havia sido encerrado em 1871, fato que ocasionou a saída tardia do novo país em busca de territórios a serem explorados no continente negro.

O sistema monárquico, que já era vigente, foi mantido após o domínio alemão, promovendo um distanciamento entre as duas etnias, o que resultou na organização, pelos hutus, de algumas revoltas que foram duramente reprimidas pelos tutsis com o apoio germânico. Contudo, em 1916, após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, o território ruandês foi ocupado pelas forças belgas, integrando o país africano à Liga Belga das Nações.

O novo colonizador redefiniu os grupos étnicos, desconsiderando as características pretéritas de cada um deles; para os belgas, toda pessoa que tivesse mais de dez vacas e/ou traços mais próximos aos traços dos europeus seriam denominados tutsis, e assim identificados em seus registros, constituindo dessa forma uma elite governante para a colônia que se apoiaria na Igreja Católica para exercer o poder.

Os pesados impostos cobrados dos hutus e os trabalhos forçados a que eram submetidos ajudaram a ampliar ainda mais o desnível socioeconômico entre eles; caso algum membro hutu conseguisse ascender socialmente, este seria redefinido como tutsi e passaria a ser taxado em suas obrigações para com o país diferenciadamente.

Em 1959, o então rei Mutara III foi assassinado, sendo sucedido por Kingeni V, o que desagradou setores da população que demandavam maior representatividade e participação política dos hutus nas decisões fundamentais para o país. No mesmo ano houve a tentativa de assassinato do político Dominique Mbonyumutwa, membro do Partido pelo Movimento de Emancipação Hutu, o que ocasionou uma grande revolta denominada Ventos da Destruição, em que milhares de tutsis foram brutalmente assassinados e outros milhares se refugiaram além das fronteiras.

Já em 1961 a Bélgica organizou um referendo em que todos os cidadãos ruandeses votariam pela continuidade ou pelo fim do modelo aristocrático em evidência por mais de um século; a maioria, composta por hutus, não teve dúvidas e decidiu contrariamente à monarquia. No ano seguinte, com o apoio da ONU, a metrópole deixou o território ruandês, sendo proclamada a independência do país, que teve Dominique Mbonyumutwa, que sobreviveu ao ataque de 1959, como presidente do governo de transição.

No mesmo ano foram organizadas eleições para legitimar o primeiro governo democraticamente eleito de Ruanda no século XX, e Grégoire Kayibanda foi eleito para um mandato de cinco anos, sendo reeleito por mais duas vezes sequenciais.

Quando o país estava conseguindo se reposicionar, já em 1973, novas revoltas reacenderam os conflitos entre os grupos, culminando em um golpe de Estado praticado, no dia 5 de julho de 1973, pelo então ministro da Defesa, e primo do presidente Kayibanda, Juvénal Habyarimana, que dissolveu a Assembleia Nacional e aboliu todos os partidos e atividades políticas do país. Dois anos mais tarde, Habyarimana, que comandava um governo temporariamente militar, criou o MRND – Movimento Revolucionário Nacional para o Desenvolvimento, que se manteria como único partido político de Ruanda por duas décadas.

Em 1978 foi promulgada a nova Constituição do país e o então presidente convocou a eleição, sendo candidato único ao cargo, fato que se repetiu também nos pleitos de 1983 e de 1989. Nesse mesmo ano o país sofreu um grande baque econômico por conta da grande desvalorização do preço do café, seu principal produto de exportação, que caiu mais de 50% no mercado internacional de commodities, desencadeando uma retração de aproximadamente 40% do PIB do país, fato que promoveu uma crise interna de proporções catastróficas, condenando centenas de milhares de pessoas à morte por desnutrição. Soma-se a isso o significativo aumento com gastos militares, feitos pelo governo, para armar ao país frente à revolta que se organizava.

A crise agravou a situação do então presidente que, por pressões populares, iniciou, no ano de 1990, uma abertura política com o objetivo de transformar Ruanda em uma “democracia” multipartidária. Em meio a esse novo panorama ocorreu a invasão do território nacional por frentes ofensivas do FPR – Frente Patriótica Ruandesa, grupo político armado, fundado em 1986, formado por soldados tutsis exilados nos países vizinhos e concentrados em Uganda, comandado por Paul Kagame, dando início a uma pesada guerra civil, que teve seu cessar-fogo em 1993 quando foi assinado pelas partes um acordo de paz denominado Arusha Accords, no dia 4 de agosto, em Arusha na Tanzânia.

No mesmo período o Conselho de Segurança das Nações Unidas assinou a Resolução 872 intitulada: “Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda” – MIANUR, e enviou dois mil quinhentos e quarenta e oito homens de suas tropas, em sua maioria belga, ao país para impedir a volta de possíveis conflitos; posteriormente soube-se que as forças armadas ruandesas eram abastecidas com armamentos provenientes de potências europeias do quilate de França, Reino Unido, Bélgica, Países Baixos e Israel, além do africano Egito.

Em 6 de abril de 1994, o avião que trazia Juvénal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, então presidente de Burundi, foi alvejado quando se aproximava do aeroporto internacional de Kigali, provocando a morte de seus passageiros, o que ocasionou um forte sentimento anti-tutsis liderado por vertentes radicais dos hutus que acreditavam que o assassinato do presidente havia sido planejado pelo grupo rival.

No mesmo mês a milícia hutu, denominada Interahamwe, liderada por George Rutaganda, um importante fornecedor de bens de consumo na capital Kigali, começou a agir incentivando os milicianos, através da RTML – Rádio Televisão Livre de Mille Collines, a atacar brutalmente todos os tutsis assim como os hutus mais moderados que os abrigavam. O genocídio ocorreu por aproximadamente cem dias, exterminando por volta de um milhão de pessoas, sem que houvesse qualquer tentativa de impedimento por parte de organizações internacionais ou de potências globais, que assistiam imóveis aos massacres.

Frentes rebeldes tutsis combateram o exército e a milícia, impedindo que o genocídio fosse ainda maior; estima-se que foram gastos mais de US$ 130 milhões de ajudas internacionais provenientes de instituições como Banco Mundial e FMI para a compra de armamentos e de munições, sendo que desse montante mais de US$ 4,5 milhões foram destinados para a aquisição de facões, machados, enxadas e martelos, de acordo com a jornalista europeia Linda Melvern.

Grandes campos de refugiados foram formados na fronteira com o Zaire, atual República Democrática do Congo.

No gráfico abaixo é possível analisar o desenvolvimento populacional de Ruanda a partir do início de seu processo de independência com ênfase na acentuada queda entre os anos de 1990 a 1994, período em que o país esteve mergulhado em guerra civil seguida do genocídio no último ano.

           

 

Em outubro de 1995, George Hutaganda foi preso e encaminhado à Tanzânia para o cumprimento de prisão perpétua, onde ficou até 11 de outubro de 2010, dia de sua morte. Já o general do Exército Ruandês, Áugustin Bizimungu, foi preso em Angola em 12 de abril de 2002 e condenado a 30 anos de prisão por crimes de guerra.

O atual presidente Paul Kagame, eleito em março de 2000, após a deposição de Bizimungu, toca o país com mão de ferro, sendo acusado, por organizações ligadas aos direitos humanos, de não respeitá-los, assassinando pessoas em custódia da polícia.

Ruanda ainda hoje figura entre os países mais pobres do mundo, sendo que todos eles fazem parte da África Negra; tem uma economia predominantemente agrária e exportadora de commodities, tendo registrado um PIB de US$ 11,260 bilhões em 2007, com elevada taxa de analfabetismo, predominante entre os hutus, e mortalidade infantil conforme dados da Unesco.

 

Eduardo Candido Gomes

A Inquietude em Andante de Eduardo Candido

I

Andante revela em sua tessitura formas minuciosas e contextualizadas de linguagens próprias de uma urbanidade plástica em pinacotecas de última geração. Signos que adentram avenidas povoadas de lembranças, ruas de visagens cujos transeuntes provocam reflexões para quem chega a uma megalópole descontinuada de poesia e música que desaparecem subitamente com sirenes, alarmes, buzinas, britadeiras, megafones, freadas, brecadas e gritos perdidos de alguém procurando um lugar desconhecido de todos. Eduardo Candido conhece essas ruas que aparecem subitamente e aquelas mais antigas que encontrou nesse ritmo de “caminhante que sonha, um sonho em sua plenitude sabendo que é preciso sonhar mais”, e segue seu destino de dragão afoito pelas alamedas, ruas e avenidas, catalogando pensamentos, lembranças, amores, saudades e as teimosias de continuar fiel ao seu amor, puro, diferente, único e verdadeiro.

Andante é, por essência, essa música que brota de uma orquestra de jovens instrumentistas sem medo da vida. Jovens que olham à frente sem temer distâncias, que colocam a mão no horizonte e plantam esperança e colhem sonhos. Colher sonhos é talento de poeta, colher esperança e plantar fé parecem ser dons de poeta ou profeta. Eduardo Candido tira o que está oculto do horizonte e vê no coração do presente o tempo certo dessa colheita, perscruta a seara, separa o trigo e as sementes que deve guardar para a próxima vez.

Berço é isso mesmo. A poesia de que vem desse jovem poeta está em um lugar muito especial, está no coração de sua família. Ali o poeta engendra seus desenhos de escritor, organiza sua agenda de temas, escreve as palavras que estavam guardadas para que Eclesiastes as revelasse. Um tempo para tudo! E assim o poeta vai, confiante, escrevinhando suas partituras, já que Andante nasceu da música da vida, da necessidade de uma trilha sonora para um filme imaginário, mas, convenhamos, nasceu da verdade de uma realidade, a sua, por uma consciência de mundo!

Eduardo Candido encontra palavras como faz o garimpeiro com sua bateia em movimentos de bailarino, ouvindo uma música além, muito além, separa os cascalhos que vão arredando-arredando, deixando que os diamantes deem sinal de que ali estão e precisam ainda ser lapidados. Candido sabe disso, por esse motivo tem o cuidado com cada gema, o cuidado do ourives, o cuidado de quem vai buscar na inspiração seu Autor, na ideia, seu sentido, no pensamento, seu objetivo, no ato, sua realização de homem, filho, amigo e poeta.

Eduardo Candido trabalha bem com os elementares, resgata do silêncio e do oculto algo que mais parece amálgama e funde poesia & realidade como fazem os artistas que fundem ouro e prata em ligas de aliança para expressar a importância da fidelidade, zelo e amor à Vida. E, nessa relação com a vida, sem desprezar a competência de cada signo dos seus textos, vai tecendo a renda com fios de linho branco que só poderá ser usada quando seu leitor tiver consciência de que esse mesmo fio pode ser a teia que o levará à luz do seu eu-ser-mundo no momento mais surpreendente, aquele em que ele, seu leitor, estiver só, contíguo ao silêncio (se é que se pode dizer assim das palavras que nos espiam, como se pedissem para ser entendidas, absorvidas como o beijo de quem amamos. E elas ali, dispostas em regras, usos e costumes, exigindo contextualização, e nós, descontextualizados pelo cansaço que a rotina dia a dia nos impõe e a cada instante, cada vez mais nos distanciamos no hipertexto e na polissemia de outros discursos sem eiras para o signo que há pouco tentávamos digerir como se fosse uma trufa de chocolate com recheio de cajá e aluar de festa junina) que o espreita desafiando-o a sair, a passear em jangadas-mônicas que soçobram em mares alencarinos. Entretanto, por estar no mar, é paisagem de um horizonte que precisa ser mensurado e interpretado pelo leitor de Andante, instigado pelo poeta a provar o chocolate amargo com noventa por cento de pureza de brasilidade.

O Poeta visto por Israel Veras

II

Eduardo Candido Gomes desvela ao leitor o sentido oculto no trecho de suas incursões entre o adágio e o alegro de suas sensações no cotidiano. Situa a realidade nesse espaço-tempo e torna o presente vivo, em andamento e aberto à vida. Sua tessitura textual desata silêncios e imagens ocultas em horizontes que só se podem olhar. Ver e sentir a vida são propostas do poeta como em “Adágio” e “Alegro” onde, verdade x realidade constitui suas reflexões e sua curiosidade diante da complexidade urbana. Essa contemplação é o “andante” no largo dos signos em busca daquele que o fará enquanto escritor, melhor interagir com seus semelhantes. É uma obra que reafirma a linguagem pela constituição, formulação e circulação, em que a memória e os sentidos se reafirmam. Eduardo Candido Gomes ascende por aclives de aquarelas para desvelar do caótico urbano o sentimento e o valor da essência humana. Pensar enquanto nos olhamos nas águas de um rio.

“… me abraço

para não me perder

das alamedas

alegres trianons…” in “No Coletivo, o Singular,  Perfil II”.

E em “Perfil III” do mesmo poema, o poeta clama à ausência, pelo que há no interior dela, como se ela fosse um rio cujas águas não pudessem espelhar o firmamento com tudo o que há nele, inclusive o azul do céu. E indaga:

“e por que alguém

esquece o azul?!”

E, nessa reflexão, busca incessante do que deseja, pensa e procura em sua urbanidade solitária uma resposta às suas incontidas insatisfações. E interroga:

“Por que alguém deseja

O que nunca experimentou?!”

Parece-nos querer conformar racional e irracional, querer mensurar o que há entre uma palavra e outra que ele mesmo pronuncie, que ele mesmo, o poeta, fale para si mesmo, invocando a consciência de mundo para não se perder no caótico de uma megalópole sem azuis, sem estrelas, sem sonhos. E como último recurso, finalmente, evoca sua memória de longo prazo:

“Keats me dirá

mais tarde”

Assim Eduardo Candido Gomes vai compondo seu Andante, o tomo, desvelando a música da vida sem executá-la, sem ousar erguer a batuta em gestos heroicos, híbridos, sígnicos (SIP*), em desafio ao runrunzinar de veículos de suas avenidas e alamedas tão literárias quanto intensas de recursos e desafios aos urbanistas para torná-las viáveis à sobrevivência que deve ser tão ousada quanto:

“Uma lágrima ferina e rubra… (…)

(…) em silêncio, macerada, água do poço de Jacó.”

Mas essa mesma urbanidade caótica revela um imaginário que ultrapassa os sonhos e fere a realidade:

“(…) E então senta-se o menino, numa madrugada trivial (…)

para assim tentar compreender de onde vem a sua essência(…)” in “Resumos de uma vida, I Tempo”. 

Em “III Tempo de Resumos de uma Vida”, desenha o tempo recriando um personagem ora escondido, uma figura buliçosa que cutuca

“sua intimidade caótica e depressiva”

no entanto, mergulha na imaginação e recria o presente do presente em gestos comunicativos,

“mas calado; extrovertido, porém tímido; feliz, todavia mofino.”

Parecem-nos contraditório, o autor, o personagem por ele recriado, seus registros que não o tornam diferente da desordem aparente da Pauliceia desvairada onde vive, trabalha, sonha, cria e reflete nesse aglomerado sobre distância, ausências e solidão.

O poeta lida com a diversidade com a atitude de quem

 “(…) resgata o inocente

de tudo o que se queima

em pecado.” In “Lua Cheia, II Gesto”.

Essa inocência permeia seu dia a dia, suas relações, suas tarefas de “roteirista” de filmes, em que ele é personagem, roteirista, diretor e ator de uma grande realidade, sua própria vida conforme “Rumo a Velha infância”, poema XII:

“Eu era o roteirista, diretor e ator

de um filme que continua

sendo exibido em meus olhos…”

Essa circunstância o torna “produtor” da maior história que será possível contar, a de um tempo em que o poeta, o homem, o espectador e o contador de histórias mergulha em seu “eu-ser-mundo” para submergir refeito de um sonho, o sonho que não se pode sonhar só, parafraseando Fernando Pessoa. “Há que se sonhar um sonho inteiro na sua própria plenitude” (Ponte, 2002), como o faz na verdade e na realidade.

O poeta, “rasga a frase” possivelmente indicando-nos suas congruências ou contestações diante do constructo sociocultural onde habita com suas mazelas. E nos aponta:

“O filme às vezes

musical de janelas semiabertas

com maestros ocultos

e ocupados em rotinas

familiares”.

Dessa forma o autor se renova, se reencontra e se reflete em vidraças, molhadas pelos zeladores, ou suadas pelo peso das estruturas, como se fosse uma lanterna com seu foco pálido diante de um anoitecer que ainda não se consumou. E nós, leitores, somos conduzidos à cena:

“e a palavra leva-me por lugares

há muito esquecidos em mim”.

Até porque, esses lugares que o poeta exibe em sua película estão imersos em suas memórias, as quais são estruturas de suas afirmações diante do testemunho que dá a própria vida.

Sentimos que seus títulos parecem querer demonstrar uma infinidade de nuances, ou complexidades dissolutas mensuradas a partir da leitura de mundo que faz dos universos que o circunda.

De repente a realidade desponta e redesenha a trajetória de suas ideias, pensamentos e atos:

“(…) acordar carente,

Jovem, vívido em saudades!”  in “Hoje”.

Dessa forma desenha os perfis que compõem sua imaginação e a realidade de sua literatura:

“Viver assim navegante,

Maternal renascença

De nós mesmos,

(…) a viver e viver e viver (…)

Inteiro. In “Perfil”.

In “Medo”, essas mesmas perspectivas se manifestam de modo frontal com a verdade:

“Aprendemos da vida, dos erros, dos caminhos antigos,

o desenho do voo, a força interior, (…)

(…) e ficamos eternamente esperando.”

O poema “Andante” tece uma malha que une e separa as margens de um rio, o rio de sua poesia. Rio cujas águas são transparentes sob o sol que às vezes se oculta para emprestar mistérios e revelar forças diferentes que constituem a vida. O rio de Andante (o livro) lembra-nos Heráclito e seus mistérios. Temos que ficar em uma das margens e comtemplar o rio de palavras que passam, enquanto a outra margem parece apenas um sonho possível:

“Busco dominá-la, anestesiar-me

de insurgências que em mim ousam desafiar-me (…)”

………………………………………………………………………………

(…) tristeza e felicidade,

doce e amargo

de um interregno”.

Quem está na outra margem do rio de Andante pode encontrar a Caverna de Platão, enquanto os livros são debulhados em busca de identidades que possam compor o elenco que encenará a grande peça filosófica diante da realidade de quem olha o mar onde desemboca esse rio em pleno século XXI. Um rio que tenta se libertar “dos liames pegajosos da ilusão”, lugares por vezes “onde mãos ilibadas e olhos cativantes modulam a perfídia”. Um rio poluído de imagens, sons, gestos, ícones, ritmos que reforçam a correnteza e a embocadura dando lugar à falta de fé e esperança.

Coerente, o poeta reafirma que o mar é o ponto de encontro de “Andante”, o poema, peregrino, transeunte em Andante, o livro, que tem como metáfora o mar onde o poeta andante e o mar onde navega vão se construindo à medida que o poeta olha, vê, sente e atribui sentidos aos signos que ele descobre e cria a sua arte de escrever, quer sejam roteiros para as artes cênicas, quer sejam notícias para o seu blog, ou poemas para seu novo livro, Sangria, ou seus artigos acadêmicos para o curso de economia na PUC-SP.

Mais coerente é impossível, visto que seus projetos focados em cultura são de cultura da educação e de educação da cultura, fundamentados na Biopsicoética. É preciso esclarecer, entretanto, que Eduardo Candido testa todas as possibilidades, todas a realidades e verdades de seus experimentos e estudos. Apropria-se de materiais diversos, documenta, registra, recria, adapta projetos, escreve, reescreve, verifica dados, decodifica informações catalogadas e, finalmente, dá o primeiro passo rumo aos seus objetivos, nada comuns, sempre inolvidáveis e empiricamente edificados sob a luz do amor ao próximo, por isso sua poesia é autêntica, vivida, experimentada.

Eduardo Candido desenha seu caminho sem apostas ou superstições. Ele é como o pescador que conhece o lugar onde atirar sua tarrafa. Tem as dimensões do lance, da moldura, do quadro, sabe que devolverá alguns pescados para o lugar de onde vieram. Sabe que as palavras, por vezes, fisgam o indesejável, por isso mesmo não se incomoda de ser gentil com naturalidade, não tem pressa, sabe que o importante é a interação, o convívio saudável, a dignidade humana. Deixa em liberdade o leitor, para que possa com ele, o poeta, à beira do rio, pescar todos os cardumes de estrelas da vida.  

Andante é obra “forjada às luzes do asfalto”, eco do maior grito bradado da imaginação, tecido intratextual da vida, onde realidade e verdade são pontos de encontro, choque e ruptura de vulcões que desafiam os pilares mais escondidos dos “eus”. Sua urdidura é uma luz amarela da vida inteira, parafraseando Bandeira, que emerge uns cem números de vezes (ideados) pelas alternativas propostas, pelos voláteis pensamentos de quem transita pela eternidade de um instante, de quem não imagina Deus, de quem não ousa senão ser o que importa: “um sonho inteiro na sua plenitude” na realidade de cada dia do pão nosso.

Finalmente, Eduardo Candido Gomes exercita sua consciência de mundo, decodificando o que encontrou na botija. Não podemos prever suas ideias, seus pensamentos e atos; em contrapartida, podemos ler, ouvir e perscrutar sua inquietude e equilíbrio diante dos desafios que a vida lhe impõe e, como espectadores, observar como ele lida com a palavra para aproximar pessoas, reconstruir caminhos, desvelar a fé, mostrar na prática a esperança e falar sobre o segredo da semente que guarda em seu sorriso de poeta para distribuir a todos que dele se aproximam, quer seja pela leitura, escrita ou pelo seu gesto de semear, ainda que as sementes não caiam todas sobre o solo ideado para a grande colheita.

Diante desta reflexão, caio em mim. Penso que uma semente deve receber o máximo de intensidade possível de luz do sol. Deve ser guardada para a ocasião da semeadura em lugar fresco e seco para que se mantenha saudável. Assim, quando atirada à terra, possa absorver intensamente toda a água possível do coração que a recebeu, para que se nutra e possa germinar tenra e forte…

 “O Verbo

ameaça, assola

e os amores fúteis

se evolam em aromas

de alamedas antigas.” In “Contemporâneo, Dizer IV”.

– Haveremos de colher. Plantamos!!!

– “Que as rosas floresçam…”

 

J. Camelo Ponte