Arquivo do mês: maio 2012

Esperança

Hoje a esperança resvalou-me a cabeça e repousou em meu peito.

Era verde!

O tempo parou e vi, como espectador de mim, um presente não mais amargo. O breu que me ocultava sucumbiu ao sol a pino que adornava o belo céu azul, sem nuvens, enquanto um colibri multicolorido retomava o folego num galho de acácia. Em pé, eu aguardava sendo parte entre tantos, todos ainda jovens carregando consigo seus medos, seus sonhos, suas dúvidas, todos revolucionários em seus princípios, em seus comportamentos, em suas linguagens; sentia-me, pois, especial, com um prazer incipiente, por desvelar a vida, naquele momento ordinário. Era minha primeira vez. Vencia, enfim. Destacava-me, ainda que calado.

Peguei-a com o cuidado de quem abraça à cria recém-parida, fitando-a. Sua essência remetia-me à infância, aos mimos de vó, ao cheiro de grama aparada, à terra vermelha dos campos de várzea agarrada aos devaneios de uma pátria. Sua consistência macia, como algodão doce, a tornara irresistível.

Levantei-a como quem brinda à fortuna, desejoso por mostrá-la a todos, gênese de meu poder. Sentia-me supremo – nesse momento, entretanto, sinto-me um tolo –, afinal de contas, semelhante influência nos envaidece e dela deriva nossa ruína – a decadência nos come por dentro –. Somos induzidos, por nosso excesso, à nossa fraqueza. Levantei-a e no auge de minha confiança a perdi, usurpada pela brisa traiçoeira do meio dia, ou pela densa soberba que me banhara; talvez por ambas.

Creio que esteja na tristeza a minha sina – gosto dela –; a felicidade é uma droga que cega, que ludibria. É da escuridão que vem o progresso, na dor que se descobre o amor – sua ventura está em seu sacrifício –, somente no silêncio fúnebre se pode ouvir a verdadeira essência – “no silêncio tão calado que mesmo uma pessoa morta ao lado quebraria” –. Somos mais sensíveis assim.

Se perguntares se tenho saudade, direi que sim, todavia vivo plenamente, envolto em meu habitual sentimento azul.

Eduardo Candido Gomes

Falsa Liberdade

Sinto-me preso.

Estou preso, de fato.

Preso em mim!

A verdade, pois, é que me sinto isolado na gélida masmorra, esculpida em meu âmago, há dias, tantos, que me impedem a lembrança de sentir-me salvo. Sinto-me encarcerado em minhas convicções, encarcerado em meus medos, nas projeções independentes feitas para minha vida e nas expectativas que eu mesmo crio sobre ela; cumpro a pena imposta, quiçá, para que pena tenham de mim.

Sinto-me um covarde.

Aspiro à dúvida sobre meus medos, mesmo certo de suas origens, e faço, ainda que, porventura, saiba resolvê-los. Evito-os. Não desejo enfrentá-los, não nesse momento. Talvez esteja enfermo! Talvez precise ser tratado… – certa vez conheci uma mulher que se viciara na água do mar, sentia prazer, quase sexual, pelo ardor do sal lhe corroendo o esôfago. Curou-se com sessões de eletrochoque. Doze, se não me engano. Perdeu, contudo, o apetite pela vida –, entretanto, sob quais preceitos submeter-me-ia a semelhantes analises? Quais distúrbios me afligem? É a insegurança um distúrbio?

Sinto-me um Homem obliquo.

Respiro tardes nebulosas; desejo, contudo, inspirar extremos e expirar pavor, desejo sentir, trêmulo, à estrídula brisa que envolve meu corpo nu, desejo viver as verdadeiras cores do mundo, desejo beijar os lábios de Deus e sugar-lhe o néctar da eternidade, mas temo. Temo dedicar-me a decisões equivocadas, que machuquem àqueles a quem amo; não me importo com minha dor nesse momento, já a tenho, afinal. Penso, pois, no estrago que as mutações de meu exíguo amor possam lhes provocar. Sábias ou não, serão equivocadas se tomadas ou se continuarem amarrotadas em meu peito? Não sei. Sei, contudo que causam, em mim, o efeito de mil mordaças, sei que me sufocam.

Hoje passei pelos minutos, por todos eles, querendo gritar, é possível que fosse um brado de liberdade, ou apenas a necessidade de extravasar essa euforia ou medo, contidos. Ouvir a própria voz a desvirginar o silêncio pode ser uma experiência interessante, mas, nesse dia angustiante, o silêncio me falta, a solidão em sua essência também está ausente, tenho-a acompanhada. – hei de dizer que essa é a sua pior faceta, pois talha a carne sem marcas aparentes –. Escrevo em estado letárgico, sem dar-me conta das palavras derramadas nas fibras; a tinta se espalha criando borrões, conteúdos confusos, vomitados em sequencias, sem nexo, que meu coração ordena.

Sou vitima da automedicação.

Trato-me com doses cavalares de Bourbon, sem água, e com gelo, uma pedra apenas, solitária como eu; nado de braçadas em seus tonéis de carvalho – afogo-me neles, na verdade –; deixo por lá as minhas dores, que envasadas, em elegantes garrafas, farão companhia a outros angustiados. Hoje meu trago não foi consumido, pensei em sorvê-lo, mas não o fiz. A garrafa permanece inviolada sobre o móvel, assim como o copo se mantem estático esperando para cumprir seu destino. Nesse momento escuto a “nona” de Beethoven. O coral em primeiro plano se posta imponente, canta uma miscelânea de agudos e de graves, enquanto a sinfonia, ao fundo, é regida com maestria. Vejo em semelhantes melodias o quão bela pode ser a vida; não a minha! Sobre a mesa, uma caixa de madeira trabalhada a mão abriga meu destino, devasso-a com a calma que apenas o desespero pode fornecer. Chego à conclusão que, ao contrário dos instantes que me fazem viver um presente amargo, este pode ser lindo.

“As quatro estações” de Vivaldi surge na sequencia em um ritmo hipnótico, é, pois, interrompida por um estampido. Terei um novo inicio ou, durante essa primavera deslocada, tive meu fim.

Eduardo Candido Gomes

Hoje

(…) acordar carente,

jovem, vívido  em saudades!

 

(…) ânsia, desejo, quimeras,

e gritos abafados,

viageiro de intermináveis

veredas!

Beijar-te, abraçar-te, viver-te

na mais terna aventura de veleiros.

 

Eduardo Candido Gomes