Arquivo da tag: Eduardo Candido Gomes

Sem Título

Meu coração chora,

como hoje chora a Pauliceia,

envolta em denso

manto

carregado por

desastres

ou por

salvação…

Meu coração chora,

não

pela distância,

mas por não mais

senti-la;

chora anestesiado

pelo gélido

descaso

de sua inoperância.

A solidão de suas lágrimas

vertem, por sangrias

desconjuntas,

de beija-flor que

sacia a sede

em cactos

desajustados,

no vazio

de mim,

irrigando

densos estreitos,

com dor.

Seus prantos

não são de culpa,

mas de medo…

medo de

testemunhar

o início

do fim…

 Medo de perceber

que a beleza

e a jovialidade

de outrora

retomaram seu posto

no autorretrato,

e foram

subtraídas,

pelo tempo,

das células,

que os sorrisos

fraternos

já não mais são dados,

que os amores,

puros,

são concebidos

em lençóis

sem nomes…

Fendas abertas,

consumidas

para serem

limpas

antes de

cicatrizadas…

nos reconstruímos

em nós mesmos,

em nossas fraquezas,

em nossas dores…

dores

causadas

pela infidelidade

a que nos permitimos,

ao violentarmos nossos

pontos de vista,

em detrimento de

alguém.

Hoje vejo

que não sou um mero

bibelô

para ser exposto

em sua sala

de estar…

Seu descaso

fortificou-me,

desenvolveu

escudos que me tornam

impenetrável,

salvaguardam

os sentimentos…

Hoje

“resisto a tudo,

menos às

tentações”.

 

Eduardo Candido Gomes

Anúncios

Para Sempre

Vivo o exílio

de mim mesmo.

Diplomacias e verdades

que o meu mundo

abjura.

 

Vivo o exílio

da palavra e da cor

na expressão do herético,

néscio!

 

Vivo o exílio

de um sentimento,

végeto de um  mundo gris

com a indiferença de um denominador

velívolo de Juquié.

 

Vivo o exílio

de uma palavra

tecida pelas ruas

da cidade despida

de sol e ausente

“(…) das coisas por sabidas não são ditas e,

por não serem ditas, são esquecidas”

 

Vivo o exílio

do que é remoto

e sentimento

do que é fugaz,

e constante refazer-se

de marés em Maresias.

 

* Poema extraído da obra Andante.

 

Eduardo Candido Gomes

Multifocais Entrevista – J. Camelo Ponte

Hoje lançamos o espaço “Multifocais Entrevista” com o ilustre cearense José Camelo Ponte, escritor, autor de 25 obras, dentre as quais Prisma Errante, seu primeiro trabalho, publicado em dezembro de 1969, aos quinze anos, e Portais do Tempo, seu Best-seller, presentes em países como Portugal, França, Alemanha, Angola, Macau, (…), é um dos fundadores do MAPE – Movimento Arte do Pensamento Ecológico, além de ser Artista Plástico, Psicólogo, Professor Universitário e Educador.

Professor, o livro no Brasil é caro e por isso afasta os leitores em potencial. O senhor acredita que o fator econômico seja o de maior peso para o fraco horizonte da leitura no Brasil?

Camelo Ponte: Realmente o livro no Brasil é caro, mas isso não é o que realmente afasta os leitores em potencial. Há vários projetos de leitura que são facilitadores não só do ponto de vista econômico, mas também técnico, didático e metodológico. Esses projetos são acessíveis nas escolas de ensino infantil, fundamental I e II, médio, superior e pós-graduação, através de vários programas locais, regionais e globais. São “programas” oficiais e “projetos” de incentivo à leitura com iniciativas da população. São iniciativas tímidas, não resta dúvida, mas poderiam alavancar a cultura da educação da leitura no estado. O Ceará abriga a primeira Academia de Letras do País e poderia ser o Estado da cultura da educação da leitura & escrita se utilizasse a diversidade que proporcionam as TICs – Tecnologias Informacionais e Comunicacionais para “semear livros a mancheias” em terras, por mais áridas que sejam. Não há dúvidas quanto ao domínio dessas tecnologias, todavia, isso não impede que o Estado tenha em seus municípios, em suas escolas, em suas comunidades de base, em seus núcleos familiares, atitudes distintas à formação de leitores e produtores de textos competentes. Façamos uma breve reflexão: qual o custo de uma biblioteca virtual?! Quais autores locais, regionais e universais constariam nessa biblioteca? O livro em seu formato tradicional seria acessado por quem? Como? Onde? Por quê? Para quê? Quem seriam os parceiros éticos e competentes para incentivar a cultura da leitura e da educação da leitura no Estado do Ceará, já que estamos falando de habilidades e valores no contexto social da leitura? E mais, estamos dizendo que a educação prescinde dessa prática como exercício de formação de cidadania, resgate da identidade, inserção social e constructo histórico.

Qual a sua interpretação sobre tantas feiras – batizadas de Bienais do Livro –, em várias capitais do País?

Camelo Ponte: As Bienais do Livro são práticas para o acesso ao livro como “objeto de consumo” se considerarmos estritamente o movimento editorial que envolve a consecução do evento como um todo. Vejo essa prática por vários ângulos e, entre eles, há um que julgo importante no contexto da leitura, é o encontro entre leitores, escritores, professores e editores, concomitantemente. Esse encontro, visto pelo contexto biopsicoético da educação por competência, desenha novas perspectivas às práticas culturais, à “realidade da imaginação”, à verdade dos conceitos ou preconceitos que existam sobre o exercício do pensamento já fecundado pela ideia, agora em estado de graça, ação divinatória revelada na possibilidade da reescrita de todas as obras ali expostas, quer sejam pela oralidade, escrita, ou pela linguagem híbrida. Ler o mundo implica mergulhar na diversidade, compreender a ideia, como prisca de luz da consciência universal, o pensamento, como tudo o que existe e de que o homem dispõe, e a ação, como gênese, movimento, vida. Vida da palavra em interação, leitor x escritor x editor x escola x família x comunidade. Caro esse trajeto, embora não concorde com os exageros dos preços, o oportunismo da exploração de alguns, as relações humanas são preservadas, a possibilidade de sonhar um sonho inteiro, em sua plenitude, é algo especial considerando a complexidade do mundo atual. Identidades, endereços, cartões, acenos, dança, cores, luzes, a palavra ganha corpo. Já imaginou encontrar Lobato (escritor e editor), Francisco Alves (considerado um dos maiores livreiros de todos os tempos), e/ou José Mindlin, o empresário (poeta do livro), que conseguiu a maior façanha neste País, ter a maior biblioteca particular e doá-la, ainda em vida, à instituição pública de ensino. As bienais, congressos, fóruns possibilitam encontros assim, tão especiais. No tocante às editoras, suas atuações no mercado, e “o mercado” é um contexto de oferta e procura, exercitam suas práticas comerciais de acordo com a demanda. Estou consciente de que são empresas em uma realidade capitalista, feroz, onde pequenas editoras são absorvidas, e estas para sobreviver deverão melhorar ainda mais no que tange a qualidade, público focado, acesso rápido, agilidade e flexibilidade às novas tendências, tecnologias de acesso, clientes personalizados, edições experimentais, etc. Creio que essas fusões provocarão uma atitude do “fazer para valer” no mercado global onde se inserem os “pequenos editores”. Mas os pequenos editores? Mas, meu Deus, do que estamos falando? Será que Cruz Filho não poderia ser editado pela Dom Bosco, o Patativa pela Abril, Lobato, pela Editora do Escritor, Ponte pela Editora da UEC ou UFC, Veríssimo pela Verdes Mares? Precisamos mensurar o que é “ser pequeno” quando se trata de ciências humanas. Em relação ao Nordeste, significa “ser relegado” pelo mercado editorial a um papel de segundo plano, tenho claro que o Nordeste se coloca como um mercado consumidor e, em várias regiões desse mesmo Nordeste, aprecia-se bem mais o que é de fora, ou “estrangeiro” como dizem, do que seus próprios valores, suas identidades, suas histórias. Sou nordestino e não sinto o ranço uspiano como muitos colocam. A PUC, a USP, a UEC ou a Unifor apreciam a inteligência, a epistemologia, a verdade e a realidade do conhecimento que consigam mensurar, organizar, aplicar, desenvolver, experimentar como “laboratórios do saber” em seus tempos/estados/ações. Em relação ao alto nível de analfabetismo, a solução é uma prática focada para os valores da família em seus contextos sociais, uma atitude pedagógica biopsicoética na raiz do eu/ser/mundo de cada indivíduo, partindo do pressuposto de que o sujeito vive em comunidade, e esta deve ser consciente, atuante, tornando-a sustentável. O verdadeiro investimento é no capital humano; quando se trata de “gente”, a verdadeira atitude é a prática efetiva de construir gradativamente o saber local, regional e global. O impacto tecnológico em todos os sentidos, quer seja para o letramento, para fins sociais, culturais, políticos, econômicos, cognitivos e linguísticos, só pode ser um mal se utilizado de forma egoísta, bairrista, corruptiva e antiética. Toda tecnologia é, e pode ser, um bem social, dependendo de sua aplicabilidade. Por exemplo, em relação aos livros, a formação e a informação chegam bem mais rápido ao seu destino, o processo é simplificado, há corte de mão de obra em todos os aspectos, há, mas essa mesma mão de obra pode e deve ser migrada à outra atividade humana, o que não falta é o que fazer em âmbito local para o desenvolvimento regional e, principalmente, no contexto social de uma comunidade. Também penso que não é só o “salário” que pode ser gestor da vida. Cuidar da terra, plantar, colher são práticas de gestão por competência. A terra, a semente, o trabalho são direitos intrínsecos à vida. A educação, a saúde e a cultura são condições sine qua non ao SER, são direitos e deveres sociais em plenitude maior. O Estado deve ser o gestor harmônico em sintonia com a verdade e a realidade de cada constructo social.

Professor José Camelo Ponte discursa no Colégio da Polícia Militar do Ceará General Edgard Facó por ocasião dos 14 anos de fundação do colégio.

Em seu discurso, o professor e escritor agradece ao Estado do Ceará, suas raízes, formação de berço e ao comandante coronel Luiz Solano Austregésilo Telles através do qual saúda e cumprimenta autoridades presentes, direção, coordenação, professores, alunos e comunidade in loco ao evento no qual Camelo Ponte agradece a láurea recebida, a comenda “Amigo do Saber e da Escola”, e lança os pilares da Biopsicoética à educação cearense.

O Brasil pode tornar-se um país de leitores, e seu livro no contexto editorial?

Camelo Ponte: O Brasil pode tornar-se um país de leitores embora ocupe na estatística mundial um lugar lamentavelmente triste e cada vez mais alarmante quando se trata de produção textual e interpretação de textos. A Escola em geral ainda não está preparada para ensinar leitura, escrita & oralidade. Três elementos interdependentes biopsicoéticos e interdisciplinares. Ensinar leitura deve ser responsabilidade também da cultura. Aliás, penso que a cultura precede a educação, e a educação é um exercício constante de aprimoramento do Ser Humano e se transforma em cultura à medida que é socializada. Recentemente, em uma instituição de ensino superior, elaborei uma avaliação para a disciplina de Didática para o curso de Pedagogia, a qual, para as cinco questões dissertativas, trazia implicitamente todas as respostas dessas mesmas questões. Tal não foi a surpresa da equipe de professores, constatar que nenhum discente apresentou resultado mínimo satisfatório. Friso que a avaliação era com consulta a todo tipo de material, inclusive ao portfólio, que adoto em minhas disciplinas como parte do processo de aprendizagem, ensino e exercício de revisão e reflexão de conteúdos flexibilizados multidisciplinares.

O meu livro Leitura: Identidade & Inserção Social, lançado nesta IX Bienal Internacional do Livro em Fortaleza, no estande da Editora Paulus, apresenta uma trajetória de pesquisa em torno da polissemia, focada para o ensino da leitura em âmbito pedagógico, biopsicoético interdisciplinar. Trabalho com dois textos, um anônimo e outro institucional, assinado pelo poeta Paulo Bonfim, considerado um dos mais expressivos poetas vivos da atualidade. As memórias às quais me refiro na obra consistem na capacidade humana de assimilar formação, informação e registro epistêmico que cada ser humano pode reter por determinado tempo em sua vida.

O que é Biopsicoética?

Camelo Ponte: Biopsicoética é epistemologia, conhecimento organizado, movimento consciente que contempla o Eu/Ser/Mundo em sua SIP – Situacionalidade, Intencionalidade e Potencialidade. Essa trilogia focada para a educação desvela no contexto de formação, informação e ciência, os pilares identitários necessários ao processo de ensino-aprendizagem. Esse exercício de consciente interação só é possível e mensurável nos contextos vivenciais do ser humano, incluindo o espaço/tempo/ação desde a creche até a universidade. “Bio psico ética” é para toda a vida. Não é possível viver sem “identidade, ética, contexto biopsicoético e consciência de mundo”. As competências humanas são fundantes à sociedade local, regional e global. Bio é impulso, psico, energia, memórias, ética, o acordo que “eu” faço comigo mesmo. Qual é o seu “acordo consigo mesmo” quando pensa desvelar ideias, pensamentos e atos dos seus semelhantes??!!!

Multifocais

Revolução com papel e lápis

IV

Já que o verbo pressupõe ação, estamos assim divagando por divagar até que surja uma ideia? Pois não poderão dizer que não tentamos melhorar, mudar, trabalhar, propor, encetar algo que possa ser o diferencial em algum momento da vida daqueles que estão próximos e, até distantes, por que não? Afinal, a pérola se constrói a partir desse exercício “interior x exterior”, “Eu x Tu”, “Nós”, conscientes de que a ciência é muito mais que informação, fórmula, método, metodologia, didática e ensino-aprendizagem é o próprio homem em ideias, pensamentos e atos. Sem nos esquecermos da ética, valores e competências que constituem essa metáfora, afirma o professor.

Diante dessa correnteza sem tempo, uma ideia fecundou o pensamento, e, depois de quase dois anos surgiu “A outra margem da palavra” como prática para a cultura da educação e como exercício para a educação da cultura. É uma seara onde as disciplinas tocam-se, modelam-se, cruzam-se, transformam-se em linguagens multifárias, da imagem à letra, da letra à palavra, da palavra à frase, da frase ao parágrafo, do parágrafo ao texto, do texto à imagem, da imagem à reflexão, da reflexão à música, da música à interação com o mundo, do mundo à consciência de mundo, da consciência de mundo o seu constructo sociolinguístico, histórico, geográfico e humano.

“40 Anos de Prisma Errante” tem esse exercício de redesenhar os caminhos percorridos pelo ser humano e em comunhão sempre com outras propostas, revalidando cores, movimentos, ideias, pensamentos, atitudes diante da vida no presente do presente para o presente do futuro.

Nesse contexto, “A outra margem da palavra” surge para dar sentido à razão e propor um espaço/tempo/ação fora das produções importadas, copiadas, encomendadas e viciadas pela falta de respeito a quem exercita a educação e a cultura no Brasil.

 

Eduardo Candido Gomes

Incompleto

Escalo degraus

raiados em tom pastel.

Deito-me (…)

olhos cerrados,

intenções sobrepostas,

envolto

em essências de fadas.

 

Sonho,

os lábios bailam

melodias esvaídas;

contemplo-os,

desejo-os,

interrompo-os (…).

Afagos!

 

Aspiro

ao balé da vida,

tardes avermelhadas

subtraindo seivas

cujos aromas, exclusivos,

encantam

(…)

A brisa acaricia,

rouba beijos trocados

em cenários

presentes em mim.

 

Resido em Vênus,

visito Marte,

viajo por estrelas,

abraçando o cosmos,

caudas de cometas,

nuvens de algodão,

(…)

revoadas estelares em

sinfonias divinas.

 

Desperto

com sublime sopro

que me toca.

Acordo contigo

presente.

 

Por longos períodos

penso, cobiço, (…),

clamo pelo azul-noite,

para encontrar-te

em voos prateados,

em pés de pombos-correios,

em flores consumidas

por beija-flores insistentes.

 

Por longos períodos

penso, cobiço, (…)

por momentos que

farão meu coração dançar.

 

Eduardo Candido Gomes