Emoções que o tempo não apaga

Dizem que a morte nos envolve quando deixamos de olhar para o presente do presente e do futuro, quando nos voltamos apenas às saborosas lembranças, ornadas pelos melancólicos sons de tempos dourados.

Tive desvelados mistérios, curiosidades, intrigas, fatos, em um mergulho de cavernas subterrâneas em meio a uma sexta-feira ordinária, de cenário noturno, sombrio, gélido, de alamedas, invertidas e solitárias, sutilmente umedecidas pela tênue garoa paulistana de invernos pretéritos, presentes e futuros.

Caminho a passos largos sob firmamento sem pérola, sem vaga-lumes, ultrapasso a porta giratória, percorro o lobby, deserto, e ouço conversas distantes provindas do piano-bar, desço alguns lances de escada rolante, seguindo as placas que me indicam o caminho, à minha esquerda está um senhor de cabelos escassos, bigode bem aparado, vestido impecavelmente em um terno escuro com riscas de giz bem cortado. Oferece-me uma taça de champanhe, cuja garrafa repousa em meio ao gelo, que recuso e agradeço. Adentro a uma antessala retangular com três mesas, ornadas com arranjos de flores, e o mesmo número de cadeiras em cada uma delas, dispostas por toda a extensão do ambiente, ostentando dois quadros, que retratam a contemporaneidade urbana em cores vivas, em sua parede principal, e outro menor, abstrato, exibido no lado oposto. Ao fundo, dois sofás em couro preto acomodam casais que conversam enquanto aguardam o início da apresentação. Transpasso o recinto e chego ao auditório, cujo solo é ornado por um elegante carpete vermelho com detalhes em cor de ouro, e as cortinas são aveludadas em tom grená, acomodo-me confortavelmente na poltrona N12 e aguardo alguns instantes; aquelas abrem-se e permitem o acesso da plateia, ainda com lugares desocupados, à banda disposta em uma estreita porção de palco ao lado direito dos espectadores.

Surgem os primeiros acordes e desabrocha, de cordas e de sopros, Cole Porter em Night and day. O negrume recompõe-se, sendo rompido, em seguida, por um feixe de luz que dispõe em evidência uma típica mesa de cafés parisienses, vive-se o ontem, na atmosfera, na decoração, nas pessoas, nos pensamentos, no Auge. A história personifica-se e gaba-se de seus feitos, cantando os sucessos (…), sou transportado em imagens, em sons, pelos anos oitenta, em lugar cativo nas apresentações seletas de monstros, como Frank Sinatra, Tom Jobim, Johnny Alf, Edu Lobo, Taiguara, Pixinguinha, Michel Legrand, Bobby Short, Alberta Hunter, Julio Iglesias, Lionel Hampton, Chico Buarque, Paquito D’Rivera (…), cada qual com sua magia, fortificando as fundações desse que foi um templo cultural cujo requinte fora degustado a cada bom dia, a cada serviço, a cada acorde dedilhado entre a São Carlos do Pinha e a alameda Campinas.

Entre cilindros, arrepios; diamantes cujos quilates são incontáveis, e cujos brilhos assemelham-se às mais potentes estrelas do cosmos, eram devorados pelas janelas d’alma a cada nova nota. Emoções que o tempo não apaga. Emergi após cento e vinte minutos de êxtase, e enquanto as cortinas cerram-se Sinatra canta As time goes by, com um cigarro em sua mão esquerda, com o microfone dourado em sua mão direita, com a gravata borboleta deslocada, já ao final do show, escorado em um banco, com a tranquilidade peculiar de uma apresentação durante uma reunião entre amigos em sua sala de estar na Nova York que tanto cantou em suas músicas, dominando a todos os presentes naquele momento e em outros.

Aplausos (…).

Levanto-me e, ao fundo, está sentado um senhor, com fortes marcas de expressão e solitário, pelo menos naquele instante, em sua poltrona, apartado do restante do público que contemplou o espetáculo naquela noite fria. A plateia esgota-se sem entender as razões que o fazem manter-se estático. Com olhar distante, em seu teatro, dentro de seu hotel, Henry Maksoud digere cada estrofe cantada, a cada sexta-feira dos últimos seis anos, no show de suas realizações, revivendo momentos que o mantêm preso há trinta longos ciclos em emoções inesquecíveis de noites de gala; e ele continua lá, olhando para aquele palco vazio, já escuro, despedindo-se, por alguns dias de sua vida, até a próxima apresentação.

 

Eduardo Candido Gomes

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Uma resposta para “Emoções que o tempo não apaga

  1. Parabéns Dú!

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