Arquivo do mês: setembro 2011

Noite

Desejo enfático pelo amanhã,

o presente,

ausente de ti,

nega-me SER!

Castigo (…). Tua ausência

fere-me profundamente

e a doce lembrança

arrasta-me à solidão.

 

Viver-te

é doce e amargo

paradoxo

ser-te!

 

Eduardo Candido Gomes

 

* Poema extraído da obra Andante.

A morte de um bookmaker chinês

The killing of a chinese bookie, título original de A morte de um bookmaker chinês, é um filme de 1976, escrito e dirigido por John Cassavetes, que também trabalhou como ator, tendo participado de diversos longas-metragens, como The dirty dozen, de 1967, Rosemary’s baby, de 1968. Tem Ben Gazzara, de quem foi parceiro durante toda a década de setenta, como o protagonista Cosmo Vittelli, ex-combatente na guerra da Coreia e proprietário da decadente Crazy Horse West Strip Club, boate onde acontecem musicais, apresentados por Mr. Sophistication e suas De-lovelies, que levam seus clientes a viagens inimagináveis ao redor do mundo, passando por cidades como Viena e Paris.

Vittelli, sujeito requintado, que degusta os melhores champanhes e charutos em seu carro de luxo, e ao mesmo tempo vulgar, desfilando com garotas de programa a tiracolo, é apaixonado por seu trabalho, fazendo-o com muita devoção e amor; entretanto, seu vício em jogos de azar coloca-o em uma situação desconfortável quando se endivida em um cassino clandestino, cuja gestão é feita pela máfia de Santa Mônica, fato que o força a mergulhar no submundo de Los Angeles em busca de meios para quitar sua dívida. Recebe então um trabalho, de difícil execução, que, se realizado a contento, liquidará seus débitos, eliminando seus vínculos com os criminosos, mas o exporá a um grande risco.

Cassavetes faz de A morte de um bookmaker chinês um filme noturno, que desvela aos espectadores as meticulosidades sombrias do universo boêmio e degradado, cuja estética suja nos direciona a Taxi Driver, de 1976, de Martin Scorsese. Através de seus personagens, o diretor e roteirista compõe a fauna taciturna de uma metrópole recheada por cafetões, mafiosos e garotas de programa que vivem de maneira intensa cada momento, que poderá ser o último.

Por conta da forte crítica a que foi submetido em seu lançamento, Cassavetes reeditou o filme cortando cenas, incluindo novas tomadas e alterando algumas sequências, sendo relançado em 1978. É uma boa pedida para aqueles admiradores de filmes independentes que fogem dos padrões hollywoodianos e seus clichês maniqueístas.

Direção: John Cassavetes
Elenco: Ben Gazzara, Timothy Carey, Seymour Cassel, Robert Phillips
Duração: 108 minutos

 

Eduardo Candido Gomes

Panelaço Tupiniquim

O 7 de setembro de 2011 tem o que é preciso para tornar-se um dia memorável, não por ser nossa data de independência política, visto que em termos econômicos ainda hoje somos colônia de várias metrópoles, todavia por ser o momento em que cidadãos, de diferentes gerações, romperam com a inércia do conformismo acomodado e levantaram-se, sem rótulos partidários ou institucionais, em busca do combate à corrupção, desastre cultural enraizado em distintos setores da sociedade e dominante nas esferas políticas da nação, razão de feridas cujas sangrias diuturnas direcionam recursos aos ralos privados da impunidade, lesando o erário público.

De modo semelhante ao realizado durante a primavera árabe, organizada através de redes sociais e que culminou com a derrocada de ditadores em países norte-africanos e do Oriente Médio, os brasileiros, em pelo menos dois estados, São Paulo, Minas Gerais, e no Distrito Federal, levaram às ruas mais de trinta mil pessoas, cobrando da Presidência, dos 38 ministros de Estado, dos 81 senadores da República, dos 513 deputados federais (…) maior seriedade e punição exemplar aos membros do funcionalismo que ultrapassam os limites da lei. Escândalos semelhantes aos mensalões petista e democrata, a absolvição inescrupulosa de Jaqueline Roriz, por meio de votos secretos, a volta ao Parlamento de figuras como Delcidio Amaral, Fernando Collor, Renan Calheiros, nomes frequentes em manchetes de desvios, expõem-nos que as causas do problema estão ocultas e precisam ser desveladas, e talvez as chaves que fecharão os caminhos degradantes do submundo político estejam em uma reforma política profunda e na educação.

Há, em meio à faxina, teoricamente proposta pelo Executivo, pontos delicados que precisam ser debatidos: qual o critério para que alguém seja indicado e posteriormente escolhido para ocupar cargos-chaves no governo? Como tantas figuras políticas selecionadas ao primeiro escalão do Executivo estão envolvidas em negociatas, desvios, lobbies, apadrinhamentos? É fato que a Presidência da República, aparentemente, não tem tolerado tais condutas antiéticas, entretanto o critério de escolha dos novos ocupantes das pastas continua o mesmo, e a sensação é de que a presidente Dilma enxuga gelo ao promover as substituições, exonerando aqueles cujos esquemas tornaram-se públicos, contudo alocando novos “piratas do estado” em suas cadeiras. A queda de cinco ministros em nove meses do governo, sendo quatro deles por razões de enriquecimento ilícito, desvio de verbas, contratos fraudulentos, pagamentos de serviços privados com recursos públicos, acende a luz vermelha de que sua manutenção resultará tão somente em novos casos de irregularidades.

Ao que parece, a população deu apenas o pontapé inicial ao basta que ressoou na mídia nacional, chegando ao gabinete presidencial no Palácio do Planalto, organizando-se, ainda nas redes sociais, para novas manifestações marcadas para 12 de outubro e, possivelmente, 15 de novembro, outra data significativa para a política brasileira.

 

Eduardo Candido Gomes

Circo sem pão

Em A Política, Aristóteles diz que é na República que o cidadão governa e pode ser governado, criando os mecanismos que permitirão reduzir as desigualdades. Todavia, não raros são os casos em que a população brasileira defronta-se com práticas e denúncias de corrupção em suas mais distintas vertentes, passando pelo esporte, pela educação, pela agricultura, pelo turismo, pela fazenda (…), transitando do macro ao micro em ritmos frequentes nas camadas alta, média e baixa.

O volume de escândalos sucessivos, cada vez mais à luz do dia, cujos autores permanecem impunes, anestesia-nos quando deveria indignar-nos, tornando-nos passivos frente à audácia daqueles que os praticam. O corporativismo corrupto, que não julga nem pune para também não ser acuado, mancha a imagem do país, que almeja posição de destaque nas relações internacionais, entretanto consegue, ao máximo, ser manchete de páginas policiais nos grandes centros, cujos títulos em letras garrafais expõem mensalões, cuecões, superfaturamentos, venda de cargos públicos, assassinatos, milícias, etc.

Há de repensarmos nossos caminhos, nossa organização social e o modelo de cobrança dos homens públicos que representam, em grande parte, nada além deles mesmos, através de interesses pessoais e partidários. A vergonha deveria estar estampada na face de cada brasileiro que trabalha por um país justo, mas se conforma que isso seja suficiente; mobiliza-se em marchas pela maconha e subjuga direitos iguais independentemente de raça, credo, orientação sexual, toma as ruas em prol de meia-entrada em teatros, mas não por melhor qualidade de ensino público, protesta contra técnicos que acumulam derrotas, contudo aceita ser atendido em hospitais precários de leitos expostos em passarelas.

Manifestamo-nos em festas e paradas em que 90% dos presentes sequer sabem por que estão ali e quais são os reais motivos daqueles movimentos, paralisamos cidades por temas inócuos e cada vez mais segmentamos uma população que deveria ser única, a brasileira, que por sua vez encontra-se escondida, receosa de enfrentar seus próprios erros de julgamento.

Os púlpitos têm-se tornado espaços ingratos em que mentiras são ditas enquanto as lágrimas, de “sofrimento”, escorrem pelos olhos tristes dos “injustiçados”, em performances dignas de estatuetas, leões, ursos (…); os votos secretos e as particularidades dos regimentos ocultam os lobos que podem ainda administrar suas fantasias enquanto engendram, até a próxima crise, ideias mirabolantes para desvios no erário público.

Assistir à deputada federal pelo Distrito Federal, Jaqueline Roriz, citar Padre Antônio Vieira, enquanto declarava-se inocente e perseguida pelos meios de comunicação, apesar do vídeo explícito em que recebe recursos escusos por apoios políticos, fez-me ver que esse é o resultado do descaso com que vamos às urnas quando temos o poder democrático para dizer BASTA! e votos de protesto semelhantes aos dados a Tiririca e outras subcelebridades que puxam consigo, ao Congresso Nacional, a câmaras estaduais e municipais, outros tantos, muitos dos quais fichas-sujas, não é a saída.

Enquanto assistimos aos movimentos, chileno e espanhol, que lutam por melhores condições de educação e de trabalho, observamos imóveis, as sangrias pretéritas e as que ainda virão, em nossos quintais.

 

Eduardo Candido Gomes