Arquivo do mês: fevereiro 2012

VIVO

Vivo

o tácito

crepúsculo

de arrebol

ausente,

entre goles

e gotas

e goles

e dores

sensações disrítmicas

que beijam

meios-fios

da desvairada de

Andrade

 

Arrefecido,

pulso,

entre tragos,

largos, curtos,

brutos,

embraseados por

devaneios

extintos

um

a

um

CINzas

sonhos

natimortos

a cada esquina,

sob cada marquise,

sob jornais de ontem,

sobre Homens

sem

identidades,

amedrontados,

famintos…

(párias

sem pátrias)

a cada esquina

torno-me menos Homem,

a cada esquina

torno-me menos vivo,

a cada esquina.

 

Valdevinos

rasgam,

como andantes

de suas próprias

sinfonias,

tortuosas veredas,

sob

noites

sem estrelas,

arremessando

tarrafas

em renques

subtraídos,

em mares

desidratados.

 

Vidas

espargidas,

em meio à

multidões anacoretas,

em meio a

beijos recusados,

em meio a

cartas sem respostas,

em meio a

abraços incompletos,

em meio a

tentações perenes,

em meio a

anjos incorridos,

em meio a

amores sem faces,

vidas

sem vida,

…,

vidas ocas.

 

Vivo

um sonho

doce-amargo,

sem final

feliz.

 

Eduardo Candido Gomes

Raimundo Nonato, vulgo marinheiro

(I Parte)

O silêncio é dominante, ouço apenas pensamentos e o barulho de páginas viradas de tempo em tempo. Seria possível notar passos na rua, caso fossem dados. O negrume espalha-se pelo ambiente corroído por um tênue foco de luz que se projeta, em tela, desvelando “crimes e castigos”. Tudo é estático, à parte os olhos que devoram, alucinados, palavras, frases, capítulos inteiros a cada nova linha.

Levanto e sirvo-me mais uma dose de Bourbon acompanhado por uma solitária pedra de gelo. Minha viagem a São Petersburgo é interrompida e com o copo na mão penso em meus caminhos, coloco a bebida sobre o porta-copo disposto ao lado de alguns retratos que repousam sobre a mesa de jacarandá, cujo corpo é talhado por belas nervuras, extingo a fonte luminosa vigente e sento-me. As janelas do escritório estão abertas, um sutil sopro externo penetra-o, oscilando as persianas de madeira e resfriando seu interior, enquanto permaneço imóvel. Lembro-me com riqueza de detalhes do sorriso exclusivo de minha avó e, a seu lado, está deitado, de modo peculiar, meu companheiro caramelo com as orelhas molhadas após fartar-se de água fresca. Avista-me e corre como em sua juventude, trajando sua camisa listrada em faixas horizontais nas cores vermelho, amarelo e branco, em minha direção. Sua saudade é tão significativa quanto a minha, abaixo-me e recebo infinitos beijos sinceros. Lágrimas brotam de meus olhos, regando meu rosto com ventura, enquanto o agarro, como que tentando materializá-lo novamente. Sei que meu reencontro é verdadeiro, já que seus pelos macios, seu nariz úmido e frio, sua potente pata de leão, são tangíveis naquele momento; pego-o em meus braços e sinto,subitamente, os dedos de meu anjo entre meus cabelos, afagos fraternos com que me brindava quando criança. O tempo avança, e adormeço sorrindo.

A escuridão verga a vida energizada pelos raios do sol que desabrocha no horizonte em meio ao céu royal despido de nuvens, conquistando campos urbanos. Alamedas, veredas, avenidas, outrora desertas, tornam-se palcos onde histórias serão construídas em cada vocativo, em cada vírgula, em cada exclamação, em cada detalhe de seus indivíduos.

Pauliceia em traços e aquarelas de Veras…

Despeço-me.

Desperto, enfim, com afinados bem-te-vis, tão magníficos quanto solos de Ella Fitzgerald, que se divertem em galhos robustos de um ipê-roxo que se reflete no solo por meio de flores desapegadas. Uma revoada complementa a orquestra e, de minha janela, avisto Raimundo Nonato, simpático cavalheiro, diuturnamente ébrio, que percorre os arredores ostentando, com ares aristocráticos, movimentos lentos e elegantes, um quepe no estilo marinheiro — assessório que me levou a rebatizá-lo dessa maneira —, um blazer azul-marinho com dois botões na mesma tonalidade epunhos carcomidos por conta, acredito, de seu uso exaustivo, adornado por uma flor, colhida em jardins olvidados e já desbotada, em sua lapela, e por um guardanapo, tratado como seda chinesa, em seu bolso, calças de sarja que sequer cobrem-lhe os tornozelos, em estado semelhante ao do blazer, uma camisa listrada, verticalmente, em azul e branco, e um par de sapatos de bico fino, com leves detalhes, trabalhados à mão, no couro marrom-café, bastante desgastado e opaco por conta da escassez de graxa, cujos solados periódicos noticiam jornadas intermináveis em busca do que não se sabe e, por ora, não foi encontrado. Faz, narra e comemora mais um de seus gols imaginários nas esquinas da Alameda Ribeirão Preto com a Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Por sua celebração efusiva, acredito ter sido um gol importante, quiçá, de final de copa do mundo; “Foi, foi, foi, foi ele, o craque da camisa…”, brada efusivo.

Findada sua comemoração, sorve dois goles de sua aguardente, beijando a garrafa para em seguida erguê-la com as duas mãos por sobre a cabeça, exibindo-a a todos, orgulhoso de seu feito; segue, contudo, em sua romaria com a “taça” em punho.

Gols,

dribles,

sonhos de infância

exibidos, à luz do dia,

pelas savanas bomfimnianas.

Preparo-me para iniciar o dia, após o breve desjejum na companhia dos meus, despeço-me com beijos e abraços carinhosos. Com o pensamento pronto, marcho por trilhos de progresso rumo à Ana Rosa; encontro-me, em poucos minutos, com o querido amigo e mestre, Camelo Ponte, com quem partilho, desenvolvo e construo tarefas, ideias, visões, sonhos, ideais para fomentar a cultura da educação e a educação da cultura, em revoluções de pensamentos e epistemes, “afoitos, rios que se ocultam em afluentes / transeuntes que desaparecem sob as cinzas do tempo”.

O “Bom”,

o“Belo” e o “Bem”

vivenciados a cada instante!

…………………………………………………………………………………………………………….

A poesia e o poeta

a realidade e a verdade

o poeta e a poesia

a verdade e a realidade

a realidade-poesia

a verdade-poeta!!!

O trabalho consome, todavia rende, e o tempo voa de maneira prazerosa e intensa. É curioso como perdemos a noção de tempo/espaço quando tratamos de assuntos que nos são importantes e deleitosos. Despedimo-nos por algumas horas para tratar de temas distintos e ganho as ruas da cidade andante sob o deslocado, sol de Alencar, acolhendo de bom grado uma rara rajada de brisa, que me é dedicada, em meio ao calor asfixiante de prédios, carros, motos, que elevam à sensação térmica ao firmamento. As pessoas refrescam-se como podem, em uma quelha, próximo à Biblioteca Nacional, cinco crianças banham-se, apenas de bermudas, em uma mangueira cujo bico apontado para o céu simula garoa em formato de cogumelo, à minha esquerda, com as compras repousadas no solo e olhar exausto, uma mulher, cujos cabelos despiram-se, há muito, da melanina, seca os humores que lhe são segregados e escorrem pelas têmporas, sob uma acolhedora sombra desenhada por casebres centenários, contíguos, que exalam história, construídos com sangue imigrante, em meio ao vasto mar de luz que inunda o centro da cidade.

“No entardecer dos dias de verão, às vezes,

                        Ainda que não haja brisa nenhuma, parece

                                               Que passa, um momento, uma leve brisa…

                                                                       Mas as árvores permanecem imóveis”.

Detenho-me por instantes examinando-os, pormenores milimetricamente esculpidos em madeira,em pedra… Sulcose figuras que são nada apartados do conjunto; todavia, à média distância, explicam-se e tornam-se imponentes; as janelas dão o ritmo dessa sinfonia.

O relógio move-se em ritmo vigoroso e prossigo com minha agenda ainda que extasiado por belezas desveladas.

“Às vezes,

para chegar exatamente aqui onde estou,

é preciso ir muito longe…

os caminhos não podem ser percorridos rapidamente.

É preciso acumular conceitos,

imagens, histórias (…), poemas,

porque ‘o mundo é uma escola’

e ‘a universidade é o caminho’.”

O pôr do sol estarta, camadas de cores engolem-se a cada segundo. Sento-me para saboreá-lo em um aconchegante café a céu aberto, momentos ímpares que precedem o início de uma nova noite de inverno, cujo ambiente, entretanto, lembra-me os melhores dias de verão. Enquanto aguardo por meu pedido, aprecio os transeuntes e suas fisionomias, posturas,  alguns caminham em duplas ou em trios conversando, sorrindo, contando seus planos, enquanto outros, mais centrados, amadurecendo ideias, passam como flechas lançadas para seus próximos compromissos.

Presos em liberdade!

Tento ler seus pensamentos; acredito, por enxergar seus olhos, que são, majoritariamente, angustiantes. É incrível como sobrevivem sem olhar para o céu, sem contemplar as estrelas, sem notar os beija-flores da vida em seus caminhos.

“Quando o sol se deita,

respira-se à beira dos golfos

o perfume dos limoeiros;

mais tarde, à noite,

nos terraços das vilas,

a sós e com os dedos confundidos,

olham-se as estrelas

e fazem-se projetos”.

Uma delicada senhorita, com voz suave, de baixa estatura, tez parda, cabelos pretos e presos, olhos grandes igualmente escuros, em ritmo mecânico e caótico, serve-me uma deliciosa torta mousse de chocolate meioamargo, acompanhada por um “espresso”, expresso, das fazendas de Ribeirão e de água gaseificada com duas rodelas de limão siciliano; agradeço-lhe com um sorriso e começo a degustar, em pequenas porções, aquela iguaria incomparável, feita com pedacinhos amendoados da Amazônia, todavia, sigo observando à minha volta. Noto, enquanto bebo um gole de meu café, um casal de turistas que observa, com ar descontraído, ao cardápio de um restaurante italiano, folheando-o e sentindo os aromas mediterrânicos a cada página virada. Enquanto eu ouvia Ecclesiam, de uma das páginas de Os bastidores: “As catedrais estão velhas / e as palavras antigas / não renovam os homens” e a máquina do caixa do restaurante me chamou a atenção com o seu despertar de “faturei mais um”, penso que seja assim, um caixa com aquele alarido todo, como quem diz para todos: ele pagou, mais um pagou.

Desabrocham de um poderoso saxofone, em meio ao turbilhão de carros que passam indo e vindo, ou vindo e indo, os acordes de Emmenez-Moi, sinto-me confortavelmente acomodado num dos camarotes do Olympia em plena América do Sul, percorrendo as lembranças postas à tona pela melodia. Cerro os olhos e sinto-me regendo-a com a ponta dos dedos, disto de mim, estou ao seu lado, segurando em sua mão, encantado por seus sorrisos, encantado por seus gestos, encantado por si; em um medley incomum, os sopros do artista expelem Cartola, com a paisagem carioca, de nosso primeiro encontro, despontando em uma renovação de cenários inesperada.É incrível como nossa essência confunde-se ao ponto de não sabermos onde começamos e onde terminamos. Volto em meio aos aplausos efusivos ao fim da apresentação, inebriado por sentimentos únicos.

“Se tu amas uma flor

que se acha numa estrela,

é bom, de noite, olhar o céu.

Todas as estrelas estarão floridas.”

Após um par de horas, em passos estudados, enceto meu retorno. So in Love é a melodia em minha vitrola, e o momento pede o requinte deFrankcom a precisão de Cole, dedilhando vinte e uma notas por segundo em meu piano. Contemplo o céu florido, criando figuras com as estrelas, fotógrafos eternizam o Masp de vão despojado, pilares, canteiros e espelhos d’água banhados em luar, em meio a oscilações de veleiros em berimbaus; avisto Raimundo, que não mais traja camisas imaginárias de seleções ou clubes, tem, no entanto, as mangas de seu blazer na altura dos cotovelos com um pedaço de madeira ostentado em sua mão direita, cantando Detalhes aos quatro ventos, homenageando dessa feita outro rei. Ao passar por ele, sorrio e obtenho a mesma resposta simpática de quem continua com seu show particular em público, afinal, sua performance é para ninguém menos do que ele mesmo.

Invejo-o e sigo meu caminho metamórfico.

Penso, ao aproximar-me de meu destino, lembrando-me de outros exemplos pelos quais passei durante a vida, sem a devida atenção depositada em Raimundo, qual teria sido o momento definitivo em suas vidas, o momento que os fizeram seguir pelos caminhos que escolheram. Será que tinham consciência de sua relevância, naquele tempo? Será que sabiam da importância dos preços a serem pagos? Quero dizer, será que tais preços pagos foram significativos em seus pontos de vista, ou suas pseudoliberdades, aos meus olhos, lhes são tudo o que precisam para viver plenamente em consonância com seus ideais? É engraçado projetar a felicidade, a própria ou a dos demais, à nossa própria forma, de acordo com nossos próprios padrões, olvidando-nos da individualidade; contudo, sempre que vejo alguém que não se enquadra dentro dos meus, preestabelecidos em minha consciência ainda em minha tenra idade de acordo com os modelos com os quais sou familiarizado, questiono-me de maneira semelhante à feita durante meus últimos passos.

(II Parte)

O calor estrangeiro de meio de ano perpetua-se, desvelando um inverno às avessas. Damas-da-noite perfumam a atmosfera enquanto acendo meu cachimbo para mais uma sessão noturna de trabalhos literários acompanhado por John Coltrane. Com a porta do escritório devidamente cerrada, sento-me confortavelmente no sofá de couro preto que ocupa longitudinalmente o espaço, afrouxo minha gravata enquanto a ventana mantém-se inviolada, apesar de aberta e convidativa. Meu processo criativo está imobilizado, continuo pensando nas razões de Raimundo,o cursor oscila insistentemente intimidando-me.Levanto-me, desviando meus olhos para a rua, novamente deserta, puxando secamente os aromas de meu tabaco de chocolate, expelindo-os e sentindo sua mistura com o jasmim já presente.

Os ponteiros registram duas e dezessete da madrugada quando decido enfrentar minha paralisia criativa, repouso, então, o cachimbo sobre a mesa, sento-me em minha cadeira e escolho algumas páginas soltas. “Hoje será no método convencional”, penso alto enquanto desligo o monitor. Sobre a mesa encontra-se a obra cuja absorção, ainda inacabada, tem ocupado parcialmente minhas noites, abro-a despretensiosamente e empeço uma leitura em que a morte faz-se presente de maneira integral, o que proporciona em mim uma mudança brusca de reflexão, afinal há alguns dias senti-me cercado por ela…

“A morte, surda, caminha

ao meu lado

e eu não sei em que esquina

ela vai me beijar…”

O que diria a psicanálise a respeito de minhas dúvidas, de meus medos? Tenho por mim que morrerei em algum acidente, sempre tive essa sensação, talvez por algum trauma que desconheça, fato que me apavora em qualquer deslocamento por terra, água ou ar que tenha de fazer. Minhas fobias começam a aflorar e as palavras correm em textos poéticos cujos ritmos lhes são dados por rimas internas e por minha respiração levemente ofegante.Seria o calor ou o tema o motivo da palpitação? Desconheço. Escrevo produtivamente por horas e, aos sons dos primeiros bem-te-vis, noto que o dia começará a nascer em breve e será longo. É engraçado como o nascer do sol e as colorações dele derivadas no horizonte, assim como a primeira brisa da manhã, são rejuvenescedores. Organizo os esboços que construí durante a noite e repouso no sofá por um breve momento antes do início oficial de meu dia. O silêncio ainda é dominante na cidade que acorda, aos poucos, para mais um ciclo alucinado.

Desperto assustado com o toque do telefone que está ao meu lado, atendendo-o com a voz embargada. Era engano. Distante, ouço alguns gritos cujo timbre acredito reconhecer, levanto ainda, parcialmente, curvado, trajando a roupa do dia anterior, caminho em direção à janela e, aqui de cima com o sorriso da certeza em meus lábios, ouço:

— Cuidei de seu rebanho, Assis — em brado de desgosto com a voz levemente embaralhada e com o dedo em riste relembrando tempos pretéritos.

“Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os pensamentos

E os pensamentos são todos sensações

Era novamente Raimundo que seguia rumo à Alameda Joaquim Eugênio de Lima nos primeiros de muitos passos de sua peregrinação daquele dia. Olhando aquela cena de discussão, em meio à rua ainda pouco movimentada por transeuntes, mas já trafegada por alguns veículos, senti-me um Big Brother observando seus caminhos, conhecendo seus medos, suas amarguras, suas venturas, seus planos, sem que os tenha, conscientemente, permitido a mim e aos outros possíveis o acesso lícito a seu meandro interior. Cerro a janela e recolho-me por mais alguns instantes, deixando-o seguir por suas escolhas.

— Cuidei de seu rebanho, Assis — diz consumindo um gole.

— De meu rebanho? Está louco!

— Não fale assim comigo, que lhe fui fiel. Ingrato!

— Cale-se e dá-me um trago!

— Não lhe dou nada enquanto não se desculpar!

— Desculpar-me? Ora, por qual motivo?

— Ofendeu-me, logo a mim, que lhe fui fiel,como pôde?

— E quando o ofendi, pode dizer-me? Dá-me um trago.

— Como ousa dizer que não cuidei de seu rebanho? Fui o melhor pastor que você já teve um dia e fui o melhor porque o fiz por devoção.

— E quando o acusei do contrário?O que tem dentro desse frasco? Dá-me um gole!

— Tenho o mundo!

— O quê?

— Tenho o mundo, ora.

— E como há colocado todo o mundo nesse recipiente tão limitado? Acho improvável.

— Deixe-me em paz!

— É um mentiroso, logo vi.

— Cale-se, não quero mais continuar essa conversa — disse sorvendo outro gole, secando aos lábios com o guardanapo que trazia no bolso de seu blazer.

— Está bem, mudemos então o rumo da prosa, sobre o que quer falar?

— Com você, nesse exato momento, sobre nada. Deixa-me em paz!

Após alguns minutos subindo e descendo pelas ruas da baixa Bela Vista, em silêncio, para e encara uma árvore de copa mediana, permanece por alguns momentos fitando-a, ao que vê um casal de joões-de-barro de dorsos vermelho-terra pousados em um galho, tenta estimular o canto dos pássaros, como que chamando a um cachorro, o que faz com que o casal apresente um curto dueto antes de retomar o voo. Continuando em sua rota sinuosa, chega a um casebre simples, cuja construção deve datar de meados dos anos trinta e tem sua fachada desgastada pelo tempo, implorando por melhorias, sua mureta baixa adornada por um discreto jardim repleto de galhos secos e grama escassa e um pequeno, todavia distinto, apesar dos sinais de ferrugem, portão de ferro com rosas de aço em sua parte inferior na extremidade direita da mureta. Ao transpassar o portão, há um caminho formado por três pedras que dão acesso à pequena varanda, que antecede a porta de entrada centralmente disposta na parede frontal, amparada por um par de janelas laterais protegidas com grades, onde está uma solitária cadeira com estrutura de metal e apoios em tiras cilíndricas de plástico colorido, típicas do interior do estado, onde Raimundo senta-se com seus sonhos, resmungando algo indecifrável.

— Não entendo o que está falando.

— Não estou falando com você! E sim cá com meus botões.

— Deixe de bobeira, sabe que tem apenas a mim como companhia. Façamos as pazes, o que acha?

— Por que pensa que tenho apenas a ti como amigo? Tenho muitos, para seu governo, tenho inclusive uma namorada!

— Dessa eu não sabia!

— Seu problema é achar que sabe tudo a meu respeito, como penso, como vivo, com quem me relaciono ou deixo de fazê-lo. Você é parte apenas, não se esqueça.

— E quem é a dama misteriosa a quem chama de namorada?

— Não lhe interessa. Saiba, pois, que lhe comprarei, inclusive, um belo presente, pois fará anos.

— E quantosela tem?

— Quantos o quê? Namorados? Apenas um, obviamente.

— Quantos anos, palerma!

— Ah!! Não sei, você sabe bem como são as mulheres, cheias de segredos com alguns números que para nós, homens, não fazem nenhum sentido.

— Bem sei! E como vocês se conheceram?

—Não me lembro ao certo, ultimamente algumas lembranças estão embaralhadas em mim, mas de fato namoramos, até já li um poema para ela, sabe, eu adoro a poesia, pois está presente em tudo, na dor, na alegria, no amor, no ódio, no dia, na noite, no sol, na chuva… para lê-la, precisa-se apenas ter os olhos certos de cada momento.

— E pressuponho que você tenha esses olhos…

— É claro, até parece que não estava comigo quando aquele casal há pouco nos declamou seus versos estridentes.

— Que casal? De pássaros?

—De fato você não tem os olhos necessários, Assis. Diga-me, como você enxerga o mundo?

— Enxergo-o como é, oras, comigo as coisas são preto no branco, não fico por aí divagando sobre a vida ou sobre o amor e coisas sem nexo. A vida é curta e não vou desperdiçá-la com filosofias insignificantes embaladas em vidro e enrolhadas por dúvidas.

— Será que você a vive de fato? Bom, chega de papo que está na hora do almoço e estou ficando faminto — diz levantando-se com certa dificuldade da confortável, apesar de simples, cadeira em direção à porta principal. Procura pela pequena chave apalpando seu bolso direito, contudo não a encontra. Para, pensa por alguns instantes e, com a satisfação do esportista que melhora sua marca após exaustivas jornadas, retira-a do bolso interno de seu casaco, comentando com certo sarcasmo e orgulho de seu feito:

— Aposto que achou que eu não sabia onde ela estava, não é?

Entretanto Assis já não estava ali, e sua pergunta permaneceu sem resposta, assim como seu feito, sem plateia.

A porta anuncia, com suas cornetas, a chegada daquele que lhe é soberano, abrindo-se, convidativa, à passagem de Raimundo, que, bamba, aceita o gracejo. O acesso é feito à sala de estar, cujo formato quadrado, com os poucos móveis dispostos, dá a impressão de ser ampla, todavia é limitada a uma área deveras discreta. À esquerda, um sofá de dois lugares, em couro bege, com alguns rasgos em ambos os assentos e no encosto próximo à pequena almofada vermelha que repousa em seu braço. Na parede,um pequeno quadro paisagístico retratando um ambiente bucólico típico do campo, em uma moldura lisa, sem trabalhos aparentes. Opondo-se à paisagem,um pequeno televisor — de dar inveja a colecionadores de quinquilharias e faria sucesso nos diversos museus sobre mídia que existem espalhados pelo mundo — sobre um caixote de madeira, cujas antenas espreguiçadas abraçam, ou são abraçadas, por novelos de palhas de aço em suas extremidades; a seu lado,uma mesinha geralmente utilizada como apoio para aparelhos telefônicos, ocupada por um vaso cuja flor solitária já apresenta sinais de envelhecimento. Disposto centralmente entre o aparelho e o assento,um pequeno tapete, trabalhado com retângulos multicoloridos, tons de marrom, cujas colorações o camuflam com o assoalho de madeira. Raimundo cerra a porta, colocando a chave sobre a mesinha e transpassa o ambiente em direção à cozinha, que, igualmente à sala, limita-se a um espaço bastante reduzindo, coloca os itens que trazia consigo sobre a pequena mesa circular e abre o forno do fogão retirando um pacote de pães; senta-se à mesa servindo-se com dois dedos de café preto que restavam na garrafa térmica que repousava sobre o móvel.

— Ué, e eu? Não bebo nada?

— Pegue um copo no armário e dividamos este que é todo o café que temos.

— Mas não quero café, quero chá, um chá inglês!

— Ingleses, geralmente, tomam chá com leite e também não temos mais leite. Sirva-se de um gole do meu próprio copo.

— Não, obrigado! Para comer, o que temos?

— Pães!

— Humm, eu adoro pãezinhos frescos e ainda quentes, com um fio de manteiga então, tornam-se fenomenais!

— Infelizmente eles estão aqui há alguns dias, como pouco e para mim são suficientes.

— Pães velhos? O que há com você? Onde estão seus modos? Exijo ser tratado com o mínimo de respeito e dignidade!Era o que me faltava! Perdi o apetite.

— Ok, comê-los-ei sozinho; comê-los-ei com a vontade do apaixonado que saboreia os segundos em presença do amor, com a vontade que faz desabrochar, na lânguida criança faminta, o sorriso puro da tenra infância, com a vontade que move homens de paz em tempos de guerra, com a vontade que germina a semente ao ser beijada pela gota de prata apartada dos céus de verão; comê-los-ei com a vontade e o prazer que nutro pela vida e por sonhos ainda não reais.

— Não entendo!

— O quê?

— Como pode falar tanto, e não dizer nada? Essa sua mania de falar coisas sem sentido, esse seu conformismo com a vida e com os rumos que ela nos fez seguir, veredas áridas e empoeiradas, sem horizontes definidos, veja aonde chegamos, veja até onde descemos, vivo, por si, as angústias que parecem não lhe afligir. Não sente saudade de sua vida pretérita? De todas aquelas experiências acumuladas, de todas aquelas pessoas à sua volta, das milhas percorridas, dos cálices de prata? Não sente saudade de ser quem foi?

— Sou quem fui, Assis, contudo, sou agora uma versão complexa daquele de outrora. Hoje conheço, de fato,aqueles que me dedicam vida, conheço-os em seu radical, assim como eles me conhecem, sei de suas fidelidades cruas e lhes sou fiel à mesma maneira; as condições materiais talvez sejam distintas, mas as verdades das pessoas também são, sem dúvida, divergentes das infidelidades condescendentes de tempos atrás. Pergunta-me se não sinto saudade e digo-lhe não, não a sinto, meu caro, pois hoje posso dizer-lhe que conheço de fato a essência do “Bom, do Belo e do Bem”desprovido de tudo que não o genuíno interesse em partilhar. “Sinto que sou tratado como uma flor de lapela, uma peça de decoração para deleitar-lhe a vaidade, um ornamento de um dia de verão.”, e se assim, de fato, me vê, sinto por si!

— Talvez por isso não controle sua Sangria!

— Como ousa querer barrar-me pelos caminhos que tenho que seguir!

— Ah, água é assim mesmo…

— Água, chama meus pensamentos de água?

— Agora parecem pedras!

— Não iguais às do Drummond —redarguiu — quem sabe, talvez, como as de Pessoa, que não construirá castelo nenhum com as pedras que atiram nele.

— Buarque que o diga:Genny, Genny, acorda dessa noite, já é meio-dia.

— Está louco! —diz Raimundo com sua sombra insistentemente.

— Olhe, você é grande, mas não é dois.

E pisa em sua sombra como vencedor da contenda.

 

Eduardo Candido Gomes

Devastado

Sinto-me em estado de putrefação interna, com um aperto descompassado que brota na região abdominal e sobe continuamente devastando de maneira lenta e crua cada órgão, cada célula que encontra em seu caminho, até desfigurar tudo que constitui meu ser, dos sentimentos ao suco que corrói entranhas e cria doloridas úlceras.

Tremedeiras involuntárias dominam cada músculo de meu corpo, provocando contrações e distensões sucessivas que coíbem minha desesperada necessidade, frustrada, de cuspir tal veneno que inunda meu coração (…)

Sinto-me sem forças nesse exato momento, seja para levantar-me da cadeira que por ora ocupo, seja para dizer basta a essa vil sensação que vivencio, seja para não ler mais as linhas que me escreves, seja para continuar essa luta através da palavra (…).

“A PALAVRA SE REBELA

EM MEU SILÊNCIO.

CRUCIFICADA,

SANGRA, QUEIMA-SE

DILIGENTE NA IMORTALIDADE

DE UM LAGO.” 

 

Eduardo Candido Gomes