Arquivo do mês: outubro 2011

Revolução com papel e lápis

I

O Ceará, um Estado com o segundo maior PIB da Região Nordeste, 45 bilhões de reais em números de 2010, é composto por 184 municípios, subdivididos em 839 distritos, cujas economias dependem predominantemente do setor de serviços, 70,9% do PIB, sendo seguido pelo setor de indústrias, 23,07% do PIB, e pelo setor agropecuário, 6,03% do PIB. Apresenta população da ordem de 8.448.055, de acordo com o último Censo, sendo 75,09% residentes em zonas urbanas, e 24,91% em zonas rurais.

No que tange à educação, o Ceará detém 12.746 instituições de ensino, municipal e estadual, distribuídas entre pré-escola, ensino fundamental, médio e superior, com corpo docente da ordem de 72.406 responsáveis pelo ensino de 3.956.120 estudantes na faixa etária entre 5 e 29 anos. Todavia, não obstante a elevada frequência escolar, da ordem de 99,4% para a faixa entre 6 e 14 anos, o percentual de habitantes com tempo de estudo igual ou superior a 15 anos é de 4,19%, muito aquém dos níveis ideais esperados para a educação de um membro federativo, cuja importância para a Região Nordeste é fundamental. Em termos de analfabetismo, a taxa se mantém assustadoramente elevada, chegando a 18,6% para pessoas com 15 anos, atingindo um nível ainda mais preocupante quando analisamos o analfabetismo funcional, que atinge incríveis 29,5% da população da mesma faixa etária, expondo, talvez, o método convencional de governos, que prezam pela abrangência em detrimento da qualidade do serviço prestado.

A história ensina que revoluções armadas, autoproclamadas “libertárias”, cujas alamedas, via de regra, levam sociedades inteiras a intermináveis guerras civis, dificilmente obtêm sucesso, alterando, de fato, estruturas, contudo mantendo a essência dos mecanismos concentradores.

Acredito que estejamos no momento ideal para refletir sobre novos caminhos (métodos e metodologias) para que possamos atravessar limites impostos ao desenvolvimento coletivo e do indivíduo da sociedade no século XXI. Precisamos sempre de algo novo para superar o que descobrimos no presente como prejudicial e ultrapassado em seu modus vivendi e operandis.

Esses caminhos, discernindo suas complexidades, métodos e metodologias, tornam viáveis os projetos que tenhamos tanto em nível pessoal, familiar e social, como em outras empreitadas mais exigentes no que tange a formação, informação e epistemologia. Por isso, para não ser vago ou raso em minhas ideias, nessa relação com o meu leitor, justifico meu embasamento com foco na Biopsicoética em seus pilares fundantes: “situacionalidades, intencionalidades e potencialidades” (cf. Ponte, 2002), assim poderemos perceber o homem em sua dinâmica, cultura e educação, presente-do-presente, presente-do-passado e presente-do-futuro. Essas vertentes “são pérolas” que o mar da vida nos oferece para o dia a dia, uma rotina sempre revivida, o que nos permite a ideia de reconstrução, revisão do nosso “Eu/Ser/Mundo”.

Pensamos nessas “dimensões de pérolas para abraçar o horizonte e poder delimitar, pela nossa condição de olhar e ver, ouvir e falar, pensar, refletir e agir na elaboração de um projeto, que seja cultural, educacional, coletivo ou pessoal” que serve como alavanca para abalar a mobilidade e mover a porta emperrada pelo caos; precisamos de tino pelo estudo e aprofundar nossa compreensão da verdade e da realidade para lidar com a complexidade vigente no século XXI.

Nesse sentido, aprender a lidar de modo especial com a rapidez da informação, que mutila a sociedade e exclui os incautos do arrojo das novas tecnologias, as quais não encontra o homem “pronto” nem a informação adequada para interagir de acordo com as exigências do mercado e a ética necessária às relações humanas no mundo, porque é pequeno demasiado dizermos em um país, “não estamos prontos”, “a sociedade não se interessa pelo coletivo”, “a escola é responsabilidade dos professores”, “o meu sistema educacional é o melhor”, “a minha moeda é a que vale” e outras tantas “certezas” tão caóticas quanto absurdas.

 

Eduardo Candido Gomes

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Brazil 2014 – How to make it work?

Na última quarta-feira o jornalista britânico Andrew Jennings, da BBC, esteve presente no Senado para falar sobre as denúncias de propina envolvendo membros da FIFA e da CBF.

Durante a reunião, Jennings citou uma reportagem que foi ao ar no programa Panorama, exibido pela emissora inglesa, além da investigação realizada pela CPI do futebol em 2001 que apontava o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, como beneficiário de recursos ilegais.

Segundo ele, Teixeira teria recebido 9,5 milhões de dólares em um esquema de corrupção, envolvendo a empresa ISL, que detinha os direitos exclusivos de negociação da Copa do Mundo, e João Havelange, ex-presidente da FIFA, substituído por Joseph Blatter em 1998, teria sido agraciado com um milhão de dólares. Ainda de acordo com o jornalista os recursos foram encaminhados através de paraísos fiscais e, ambos, Teixeira e Havelange, fizeram um acordo com a justiça suíça, que julgava o caso, no qual assumiam que recebiam propinas, sendo obrigados a pagarem uma multa em troca do sigilo do processo e de seus nomes.

O presidente em exercício da FIFA tampouco saiu ileso do processo, tendo banido o jornalista, definitivamente, de conferências e de eventos organizados pela entidade. Abaixo segue entrevista realizada pelo Deputado Federal Romário com o jornalista, que foi publicada nos seguintes endereços:

* http://www.transparencyinsport.org/ 

* www.romario.org/

 

Journalist Andrew Jennings gives an exclusive interview to former iconic Brazilian footballer and now Congressman Romario for his new website:

Romário:  How long have you been investigating corruption in sport?

Andrew Jennings: I have been an investigative reporter for 40 years and 20 years ago I was investigating the Palermo mafia and their operations in Europe, the UK and North America. At one stage while filming in Palermo I found myself nose-nose with a very angry mobster who commanded us to stop filming.

This experience and understanding of how Organised Crime Families operate was perfect training for the next target – the international sports federations. I thought this work would not last too long. Twenty years later I am still unearthing corruption evidence – especially at FIFA! I have no doubt that FIFA is an organised crime family and Blatter’s mechanism is lubricated with development grants and endless allowances of precious World Cup tickets.

 Romário: Why are you so interested in Ricardo Teixeira, the CBF and their involvement in the 2014 World Cup?

AJ: Any fan – or reporter – has to be interested in who is hosting the next World Cup and how preparations are going. After the corruption in South Africa when so many unneeded football stadiums were built – and the profits that went to corrupt politicians and contractors – Brazil, which still has poverty to overcome, will be scrutinised by the rest of the world. Globally, there is no trust in the CBF.

There is also little trust in the frequent statements by FIFA general secretary Jérôme Valcke that Brazilis not preparing fast enough. Whether that is true or not, international observers note the warm relationship between Valcke and Teixeira. You have to wonder why? This pressure from FIFA should be resisted.

I am sure that in recent years Blatter promised Teixeira that we would be the next FIFA president. With Both men now deep in scandal, this is less likely.

Romário: Who is Ricardo Teixeira in the context of international soccer?

AJ: Few fans out side Brazil would recognise Teixeira on the street. Those who do know him see a man who became rich and powerful exploiting Brazilian football and FIFA. The international news wires run stories about his dubious involvement in World Cup contracts Teixeira is permanently shamed by the 2001 Alvaro Dias report which was reported internationally.

His nickname ‘Tricky Ricky’ is now spreading around the world.

Romário: How did Brazil win the right to stage 2014?

AJ: Blatter the mafia Godfather has to keep his world-wide Under-Bosses happy. Ricardo wanted his own World Cup so he could loot it. The best way for Blatter to keep him loyal was to let him have 2014. After South Africa had been robbed in 2000 for the 2006 World Cup – bribes were paid on behalf of Germany– the whole of Africa was furious. Blatter hurriedly introduced the idea of rotating the World Cup between continents. South Africa then got 2010 and 2014 was promised to South America. You have to wonder what deals were secretly made between Teixeira and the rest of the Comnebol countries.

Romário: You talk about the secrets in Zug? What is this story?

AJ: This is the FIFA’s big one, bigger than any other scandal. A spectre that has been haunting Blatter, Teixeira and João Havelange for the last decade. For the two previous decades massive bribes were paid by a Swiss sports marketing company in return for being awarded the lucrative contracts for the FIFA World Cup. That company, ISL, went bust in early 2001 and the gangsters at FIFA have been trying desperately ever since to undermine investigations by criminal prosecutors.

Romário: What kind of bribes are we talking about?

AJ: I sat in a Swiss courtroom in March 2008 and heard a judge reveal that ISL had paid around $100 million in bribes to get their contracts. The reporters in court were stunned by the amount. $100 million in bribes! This was going to be the biggest corruption story in the history of FIFA – and maybe world sport.

Romário: And the investigations continued?

AJ: That case was about how the managers of ISL had misbehaved. The police investigations continued into the bribes and the case was settled out of court in the summer of last year – the announcement was made during the World Cup inSouth Africaand got little attention. The formal statement from the prosecutor’s office in Zug said, ‘Investigating Magistrate Thomas Hildbrand in August 2008 began an investigation into allegations that certain members of FIFA’s Executive Committee received kickbacks on marketing contracts. After five years of inquiries the accused agreed to repay CHF5.5million and the case was closed.”

Romário: What did this mean, put simply?

AJ: The three targets of the investigation had to confess they knew about the bribes and that two of them had taken bribes. They repaid some of the money and were guaranteed secrecy. That is the Swiss judicial way of settling some criminal cases.

Romário: Is that the end of the story?

AJ: Certainly not. Our duty as BBC journalists was to find out who had admitted taking the bribes. We felt that the world had a right to know.

Romário: So what have you done?

AJ: As reporters do, we made confidential inquiries in Switzerland and learned a great deal more. So, on May 23 this year I presented a BBC Panorama programme in which I named Ricardo and João Havelange as the two FIFA officials who had admitted talking the bribes. I also named FIFA – and here we can only be talking about Blatter – admitting that money due to FIFA from ISL had been diverted in bribes.

Romário: Have you been fair to Ricardo Teixeira?

AJ: Of course. The BBC insists that anybody named like this in a programme is given ample time to respond to allegations and hopefully, grant us an interview. For both programmes naming Teixeira – last November and this May – we sent two emails each time informing him of our allegations and inviting him to participate in the programme to put his side of the story.

Romário: How did he respond?

AJ: He has never replied. He has ignored us and not taken the opportunity to deny anything. Instead he has attacked the BBC and British journalism as ‘corrupt.’ That is no answer to very serious, documented allegations.

Romário: What documents do you have to prove that Teixeira – and Havelange – took bribes?

AJ: For our programme in November last year I obtained a list of 165 bribes paid by ISL to mostly FIFA officials – the $100 million. We showed it on screen – highlighting the names of Teixeira and Havelange. We also got more evidence showing that Teixeira had taken nearly $10 million through a Liectenstein company named Sanud.

Romário: Why was that important?

AJ: In the Senator Alvaro Dias 2001 report on corruption at the CBF he named this foreign company Sanud as being the source of money that went to Teixeira. But he couldn’t find out where Sanud got its money. We found it – many times – in the list of bribes paid by the ISL company. So the money was laundered from Switzerland to Liechtenstein and then to Brazil. It remains a disappointment that prosecutors did not take action over the revelations in the Dias report.

Romário: What happens next?

AJ: We investigated and discovered that in Swiss law it is possible to have the secret police report revealing who got the bribes unsealed. We now have to convince a Swiss court that it is in the public interest to disclose this evidence. It will happen – there is an important legal precedent.

Romário: What are you doing to prove that Teixeira is the bribe taker?

AJ: The BBC and some Swiss media – and I believe a Brazilian newspaper – have begun formal legal proceedings in Switzerland. The public prosecutor in Zug says he is prepared to disclose the evidence but he is being opposed by the guilty men. They are spending large sums on Swiss lawyers to argue against publication.

Part of the process is that we are given copies of the reasons why publication is being blocked. The Swiss lawyers say their clients would suffer ‘negative press coverage.’ Their reputations would be ‘damaged irreparably.’ They might even suffer ‘kidnapping, burglary or robbery.’  These legal letters name FIFA but the other two men are called B2 and Z. From the descriptions given we have additional evidence that they are Teixeira and Havelange.

Romário: How long is it going to take to see the secret report?

AJ: It could take as much as 12 months. The Zug court backed us on May 24 and now the bad guys are appealing to the next level. Eventually it will end up at the Supreme Court in Lausanne and we are confident that, on past form, we will get the documents and the guilty men will be exposed.

Romário: How important is this? The last bribe was paid in early 2001?

AJ: The implications are huge. FIFA and the two Brazilians will be exposed as crooks. The world will learn that the man in charge of the 2014 World Cup is corrupt. The damage toBrazil’s reputation will be immense.

Romário: What should Brazil’s Congress and government do?

AJ: It is time for President Dilma Rousseff to take action to terminate this scandal. My advice is that she should call Teixeira and say, ’Please come to my office – and bring the entire Swiss legal file with you. I want to see that secret report and I want to see all the correspondence where you are trying to suppress the media reporting whatever you are alleged to have done.’

Romário: What if he refuses?

AJ: Then he must be evicted swiftly from any part of organising 2014. And with must go his family and allies. A clean sweep. There is plenty of talent in Brazil to replace them and produce a great tournament on budget.

Romário: What else can be done?

AJ: The Congress should also demand to see these Swiss documents. And the Government, through the Foreign Ministry, should also make application to the Swiss government for the documents to be made public. It is inBrazil’s national interest to know.

Romário: Ricardo Teixeira claims that the BBC is controlled by the British government.

AJ: That is nonsense and he must know this. The BBC is totally independent of any government. You may recall that when we were preparing our programme in November last year British Prime Minister David Cameron attacked us because of the damage we might cause the England bid. He didn’t seem to understand that as England doesn’t pay bribes, we could never win.

Romário: But Ricardo Teixeira also says that your BBC programmes naming him as corrupt are revenge for England not being awarded the 2018 World Cup?

AJ: That’s nonsense. We made our first programme exposing the ISL bribes to FIFA top officials in June 2006! The second programme, about the bribes paid by Germany was screened in 2007 and the first one to name Teixeira was transmitted last November, three days before the votes for 2018 and 2022. Our duty as free and independent British journalists was to warn what would happen in the voting. And it did. And of course we made those programmes to demonstrate to England and the wider world that that the only way to win the right to host the tournament is to pay bribes.

Romário: What else?

AJ: I love visiting my friends in Braziland I look forward to an great tournament in 2014 with Teixeira out of the picture and all the budgets made public – to watch out for corruption. They we will have a great party!

Abaixo segue o programa exibido pela BBC:

Faz-se necessário que tanto a população como o governo brasileiro tome as devidas providências para que os recursos públicos não sejam uma vez mais destinados aos ralos privados da impunidade.

 

Eduardo Candido Gomes

Sobre Caminhos (…) – J. Camelo Ponte

J. Camelo Ponte por M. Garrot

 

A literatura de J. Camelo Ponte faz emergir vibrantes matizes na poesia da vida, ampliando, ilimitadamente, o leque de oportunidades e de leituras de mundo em todos que a vivenciam.

A observância e o rigoroso manuseio de sua matéria-prima o tornam hábil em descrever as nuanças dos caminhos que percorre, desde suas origens físicas a suas fontes metafísicas.

A simplicidade requintada de suas palavras, a elegância desprovida de soberba de seus pensamentos, a sofisticação de sua genialidade promovem em seus leitores a busca pelo caminho, o caminho pelo aprendizado, o aprendizado como desdobramento epistemológico, pois sem ele a vida é nada.

Somente o inquieto, o curioso pelo desconhecido, o idealista que não se contenta com o sonhar abstrato, tem o que é necessário para ser recompensado com garbosas flores adornadas por sedosas pétalas em vastos campos, cuidadosamente retocados pela graça do tempo, que ornamentam o espaço contemplado pelos desbravadores da vida.

“O próprio viver é morrer, porque não temos um dia na vida que não tenhamos, nisso, um a menos nela”, disse Fernando Pessoa, que complementou: “não conto gozar a vida, nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser meu corpo e minha alma a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade, ainda que para isso tenha de a perder como minha”.

Assim vejo J. Camelo Ponte, descrito em cada vírgula de Pessoa.

 

Eduardo Candido Gomes

Hotel Rwanda

Hotel Ruanda, ou Hotel Rwanda como em seu título original, conta a história de Paul Rusesabagina, gerente de um hotel cinco estrelas, localizado em Kigali, capital do país centro-africano. Ele leva uma vida confortável junto de sua família e mantém relações sociais bastante amistosas com pessoas deveras influentes por conta de seu cargo executivo.

Após o fatídico acidente que culminou com a morte do presidente Juvenal Habyarimana, de origem hutu, a vida de Rusesabagina e de todo o país mudaria drasticamente; esse fato marcou o início de um dos momentos mais tristes da história, que acarretaria o assassinato de aproximadamente um milhão de pessoas em pouco mais de cem dias.

O filme foca o período em que a milícia ruandesa, formada por hutus, decide exterminar a minoria tútsi, assim como seu posterior conflito armado com rebeldes tútsis que haviam invadido as fronteiras ruandesas, vindos de Uganda, onde estavam exilados.

Em meio à desgraça, ao ódio e à intolerância, surge o personagem principal, que muda a forma com que o mundo enxergaria o conflito; Paul, que é hutu, é casado com Tatiana, de origem tútsi, e têm quatro filhos: Roger, Diana, Lys e Tresor. Sua luta, inicialmente, é pela sobrevivência de sua família e de seus amigos mais próximos.

Para os milicianos genocidas, Rusesabagina, é visto como um traidor por abrigar e defender “as baratas”, forma pejorativa que usavam para se referir à minoria.

Com a fuga dos cidadãos estrangeiros, retirados do país pelas forças militares europeias, o hotel se transforma em um campo de refugiados em meio à carnificina que ocorria fora dos muros do Lês Mille Collines. Nenhuma superpotência ou organização mundial enviou qualquer tipo de auxílio aos ruandeses, sendo que o efetivo militar das Nações Unidas, em meio ao ápice do massacre, era de 300 soldados, que já estavam no país antes do início da crise e agora precisavam proteger aos cidadãos, que eram perseguidos, em toda sua extensão territorial.

Rusesabagina utilizou a proximidade que mantinha devido aos mimos e às posteriores propinas oferecidas ao general do Exército Áugustin Bizimungu, para negociar a segurança nos arredores do hotel, o que impediu a invasão e consequente morte das 1.268 pessoas que estavam sob sua guarda. Esses refugiados, posteriormente, foram transportados de forma clandestina, por veículos das Nações Unidas, para além das linhas rebeldes, que avançavam encurralando a milícia, o que os deixou a salvo da ira dos facões e das foices inimigos.

O filme é excelente e deu a Don Cheadle uma indicação ao Oscar de Melhor Ator, como o intérprete de Paul Rusesabagina, que hoje vive com a família em Bruxelas, na Bélgica, e ficou marcado para a história como o Oskar Schindler de Ruanda.

Direção: Terry George

Elenco: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Joaquin Phoenix, Nick Nolte

Duração: 121 minutos

 

Maiores detalhes sobre a história de Ruanda podem ser obtidos em: https://multifocais.wordpress.com/2011/08/27/dos-desastres-da-colonizacao-ao-genocidio-de-ruanda-2/

 

Eduardo Candido Gomes

Desliguem seus televisores, desconectem-se do mundo virtual e saiam às ruas!

No momento em que este artigo é escrito, uma nova denúncia de corrupção contra agentes públicos do primeiro escalão do governo federal e do governo do Distrito Federal é desvelada, contudo a surpresa e a indignação, que deveriam dominar a opinião pública brasileira, perderam efeito diante das inúmeras irregularidades que têm surgido nos últimos meses.

A revista Veja traz em sua última edição uma matéria cujo conteúdo expõe um novo esquema de desvio de recursos públicos, desta vez no Ministério dos Esportes, através do programa Segundo Tempo, que repassava verbas a Organizações não Governamentais (ONGs). Estas deveriam promover atividades esportivas em regiões carentes, todavia, para que os recursos lhes fossem encaminhados, tinham de destinar, em dinheiro vivo, 20% do total concedido, comprovados devidamente, através de notas frias emitidas por parceiros, a título de despesas com materiais esportivos, itens de higiene, alimentação dos alunos (…), a pessoas ligadas ao PCdoB. A legenda está à frente do Ministério em questão desde o ano de 2003, à época com Agnelo Queiroz, governador em exercício do Distrito Federal e ex-membro do PCdoB, hoje com o ministro Orlando Silva Jr., que se mantém no quadro do partido e fora secretário do Ministério durante a gestão anterior. Segundo João Dias Ferreira, ex-policial militar, antigo militante do PCdoB e autor das denúncias, estima-se que o volume desviado ultrapasse os 40 milhões de reais. Em entrevista concedida à Folha de S. Paulo, que segue abaixo, o ex-policial disse que o ministro lhe propôs um acordo, em março de 2008, para que não levasse a órgãos de controle e à imprensa denúncia sobre irregularidades no programa em questão.

Folha – Que tipo de provas o sr. pretende apresentar a respeito dos fatos que o sr. narrou à revista “Veja”?

João Dias Ferreira – No momento certo, não sei ainda se no Ministério Público ou na PF, [os advogados] apresentarão dois áudios que nós temos e alguns documentos.

Folha – O ministro tinha conhecimento de irregularidades no Segundo Tempo?
João Dias Ferreira – Sempre soube, sabe até hoje. E isso funciona ainda. […] São empresas de familiares, de militantes. Então tudo é uma grande logística, é uma grande engrenagem.

Folha – Você chegou alguma vez a conversar sobre esse assunto com o ministro Orlando?

João Dias Ferreira – Já. Em março de 2008, foi nessa reunião que eu exigi a participação dele para homologar o acordo em que ele sanaria todos os problemas das minhas ONGs. Eu falei: “Olha, não concordo com o que foi feito. Você estão abusando, estão produzindo documentos, eu vou denunciar”. Eu pensei até que ele não sabia. Nessa época ficou evidente que ele sabia. Inclusive ele assumiu um acordo: “Olha, tudo bem, vamos sanar esse problema”.

Folha – Onde foi a reunião?

João Dias Ferreira – No gabinete dele. Ele já era ministro. A reunião foi feita extraoficialmente.

Folha – Quem participou da reunião?

João Dias Ferreira – Orlando Silva, Julio Filgueiras, que era o secretário nacional de esporte educacional, inclusive pediu exoneração logo em seguida em virtude das repercussões dos fatos noticiados na imprensa [sobre irregularidades em ONGs]. O corpo jurídico, salvo engano, era liderado pelo atual secretário-executivo Valdemar, a Milena, que era chefe de fiscalização.

Folha – Nessa oportunidade você narrou irregularidades?

João Dias Ferreira – Todas elas, e ninguém negou. O próprio ministro falou para mim: “Fique tranquilo que nós vamos regularizar a situação. Não precisa tomar parte ao Ministério Público, à imprensa, porque aqui eu tenho todas as condições legais para sanar os problemas”.

Folha – Você disse que iria procurar a imprensa e o Ministério Público se ele não solucionasse…?

João Dias Ferreira – Disse. E esse acordo foi da seguinte forma, que ele sanasse [os problemas da prestação de contas das ONGs de Ferreira], encerrasse minhas entidades. E nessa reunião ficou acertado que ele mandaria as duas entidades para o TCU para homologação.

Folha – Você não gravou a reunião?

João Dias Ferreira – Nessa, não, mas tenho outra, a posteriori, que se originou dessa. Onde estavam presentes o Adson, que era “subministro”, o Fábio, que é atual secretário, o Julio Filgueira, o Charles, que era chefe de gabinete do Adson. Essa reunião foi logo em seguida, provavelmenteem abril. Foina calada da noite, no sétimo andar, na sala do Adson, no ministério.

Folha – Na reunião com o ministro, o que sr. pediu a ele, o que o sr. chama de sanar problema?

João Dias Ferreira – Tenho como provar. São problemas da seguinte natureza. Pediram 20% lá atrás…

Folha – Quem pedia?

João Dias Ferreira – Tinha uma comissão de captação. Era uma comissão grande, eles iam para impressionar. Tudo uma operacionalidade fraudulenta. “Olha, nós cobramos normalmente, entre 10 e 20%.” E eu concordei. Porque até então eu imaginei que estaria no cronograma de desembolso previsto. Só que não tinha. […] E eu me recusei a pagar. Aí começou a guerra. Eu paguei 1% [a uma empresa que dizia fazer consultoria], no valor de R$ 20 mil, e o documento está na 10ª Vara Federal.

Folha – O episódio da garagem, o sr. documentou?

João Dias Ferreira – Não. Em nenhum momento eu falei que eu vi o ministro receber. Eu falei que o braço direito dele, que é o Fredo [Ebling], falou para mim várias vezes que entregou.

Folha – Por que o sr. decidiu fazer as denúncias agora?

João Dias Ferreira – Estava aguardando o Ministério Público me chamar.

O lado tragicômico da situação decorre do fato de, há alguns dias, aproximadamente 25 mil pessoas terem se reunido em diferentes capitais, gritando palavras de ordem, empunhado vassouras, esfregões, cartazes, símbolos que demonstravam a elevada indignação da população ali representada perante a falta de senso público de nossos governantes. Críticos a essas manifestações, que já haviam acontecido durante o 7 de setembro, dizem que a falta de uma bandeira clara, por considerarem corrupção algo muito amplo, é a razão pela qual o movimento não consegue agregar a multidão de insatisfeitos com os mecanismos políticos vigentes no país. Contudo, protestos como Ocupe Wall Street e a Revolução de 68, que despontou através de uma manifestação estudantil, sendo posteriormente incorporada pelo movimento operário francês, mobilizando mais de 9 milhões de pessoas pela Europa, tampouco apresentaram um foco concreto. Outros dizem que há adesão, porém não há força para tirá-la da inércia acomodada do mundo virtual, colocando-a em movimento pelas ruas do país.

Em outro artigo publicado pelo mesmo periódico, a deputada federal Janete Capiberibe (PSB-AP) sugere que a bandeira a ser levantada seja a PEC 349/2001, cuja essência visa abolir os votos secretos no Congresso brasileiro, visto que sua natureza protecionista, no período ditatorial, não mais se faz necessária em meio à democracia vigente, sendo utilizada, quase exclusivamente, a proteger interesses escusos de homens públicos cujos desvios de conduta não podem ser expostos. A referida PEC foi aprovada por unanimidade no ano de 2006 por 383 votos a favor; contudo, para que haja uma mudança constitucional, faz-se necessária uma nova votação que até o momento não foi realizada.

É interessante observar que os votos não pertencem aos políticos, que são, tão somente, representantes dos ideais e dos pensamentos daqueles a quem representam, e o fim do voto secreto permitiria ao eleitor, de maneira transparente, dentre tantos outros benefícios, como a redução parcial da corrupção, ter mais ferramentas para analisar as condutas do candidato a quem elegeu e se tais posturas o representam como cidadão, podendo direcionar seu voto, de maneira mais detalhada nas eleições seguintes, àquele que melhor se enquadra em seus critérios. Alguns estados, como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, encontram-se adiantados no que tange a essa governança, tendo abolido há alguns anos o voto secreto de suas assembleias.

Poucos movimentos na história política brasileira conseguiram mobilizar uma massa energizada que inflamasse o civismo de nosso povo. Os exemplos mais conhecidos são as Diretas Já, e os Caras Pintadas, aquele com início em 1983, com Teotônio Vilela, ganhando reconhecimento nacional em janeiro de 1984, quando um milhão e meio de pessoas ocuparam o Vale do Anhangabaú, e este com seu auge em agosto de 1992, quando 400 mil pessoas saíram às ruasem São Paulo, cem mil pessoas em Recife, 80 mil pessoas em Salvador, 60 mil pessoas em Brasília, (…) pedindo a renúncia do então presidente da República, Fernando Collor de Mello. Até o momento, as manifestações realizadas em 7 de setembro e em 12 de outubro de 2011, apesar de significativas em Brasília, ainda não ganharam adesão nos demais estados da federação, o que poderia explicar a ausência temporária de resultados e de divulgação com pouco destaque nos principais veículos de comunicação. Faz-se necessário que abracemos,em São Paulo, a ideia disseminada pelos brasilienses para dar um basta na impunidade cuja frequência nos tem deixado desinteressados de nosso futuro coletivo, visto que este só conterá o que pusermos nele hoje.

A política passa-se nas ruas!

 

Eduardo Candido Gomes