Arquivo do mês: janeiro 2012

Revolução com papel e lápis

I

O Ceará, um Estado com o segundo maior PIB da Região Nordeste, 45 bilhões de reais em números de 2010, é composto por 184 municípios, subdivididos em 839 distritos, cujas economias dependem predominantemente do setor de serviços, 70,9% do PIB, sendo seguido pelo setor de indústrias, 23,07% do PIB, e pelo setor agropecuário, 6,03% do PIB. Apresenta população da ordem de 8.448.055, de acordo com o último Censo, sendo 75,09% residentes em zonas urbanas, e 24,91% em zonas rurais.

No que tange à educação, o Ceará detém 12.746 instituições de ensino, municipal e estadual, distribuídas entre pré-escola, ensino fundamental, médio e superior, com corpo docente da ordem de 72.406 responsáveis pelo ensino de 3.956.120 estudantes na faixa etária entre 5 e 29 anos. Todavia, não obstante a elevada frequência escolar, da ordem de 99,4% para a faixa entre 6 e 14 anos, o percentual de habitantes com tempo de estudo igual ou superior a 15 anos é de 4,19%, muito aquém dos níveis ideais esperados para a educação de um membro federativo, cuja importância para a Região Nordeste é fundamental. Em termos de analfabetismo, a taxa se mantém assustadoramente elevada, chegando a 18,6% para pessoas com 15 anos, atingindo um nível ainda mais preocupante quando analisamos o analfabetismo funcional, que atinge incríveis 29,5% da população da mesma faixa etária, expondo, talvez, o método convencional de governos, que prezam pela abrangência em detrimento da qualidade do serviço prestado.

A história ensina que revoluções armadas, autoproclamadas “libertárias”, cujas alamedas, via de regra, levam sociedades inteiras a intermináveis guerras civis, dificilmente obtêm sucesso, alterando, de fato, estruturas, contudo mantendo a essência dos mecanismos concentradores.

Acredito que estejamos no momento ideal para refletir sobre novos caminhos (métodos e metodologias) para que possamos atravessar limites impostos ao desenvolvimento coletivo e do indivíduo da sociedade no século XXI. Precisamos sempre de algo novo para superar o que descobrimos no presente como prejudicial e ultrapassado em seu modus vivendi e operandis.

Esses caminhos, discernindo suas complexidades, métodos e metodologias, tornam viáveis os projetos que tenhamos tanto em nível pessoal, familiar e social, como em outras empreitadas mais exigentes no que tange a formação, informação e epistemologia. Por isso, para não ser vago ou raso em minhas ideias, nessa relação com o meu leitor, justifico meu embasamento com foco na Biopsicoética em seus pilares fundantes: “situacionalidades, intencionalidades e potencialidades” (cf. Ponte, 2002), assim poderemos perceber o homem em sua dinâmica, cultura e educação, presente-do-presente, presente-do-passado e presente-do-futuro. Essas vertentes “são pérolas” que o mar da vida nos oferece para o dia a dia, uma rotina sempre revivida, o que nos permite a ideia de reconstrução, revisão do nosso “Eu/Ser/Mundo”.

Pensamos nessas “dimensões de pérolas para abraçar o horizonte e poder delimitar, pela nossa condição de olhar e ver, ouvir e falar, pensar, refletir e agir na elaboração de um projeto, que seja cultural, educacional, coletivo ou pessoal” que serve como alavanca para abalar a mobilidade e mover a porta emperrada pelo caos; precisamos de tino pelo estudo e aprofundar nossa compreensão da verdade e da realidade para lidar com a complexidade vigente no século XXI.

Nesse sentido, aprender a lidar de modo especial com a rapidez da informação, que mutila a sociedade e exclui os incautos do arrojo das novas tecnologias, as quais não encontra o homem “pronto” nem a informação adequada para interagir de acordo com as exigências do mercado e a ética necessária às relações humanas no mundo, porque é pequeno demasiado dizermos em um país, “não estamos prontos”, “a sociedade não se interessa pelo coletivo”, “a escola é responsabilidade dos professores”, “o meu sistema educacional é o melhor”, “a minha moeda é a que vale” e outras tantas “certezas” tão caóticas quanto absurdas.

 

II

“Hoje, quando plantamos uma semente, semeamos para o mundo. Da mesma forma uma ‘ideia’ (inspiração), uma vez semeada no ‘pensamento’, constrói o ‘ato’, seu modus operandi no mundo” (PONTE, 1975).

Dessa forma, penso que essa reflexão pode ajudar-nos a desenhar uma travessia de rios sociais que permeiam nossa leitura de mundo para que tenhamos um parâmetro atual para construirmos algumas ideias sobre a necessidade de contextualizarmos “a educação da cultura e a cultura da educação da cultura” a partir de uma prática local, com atividades imbricadas, intertextuais, interdisciplinares, multidisciplinares, transdisciplinares, e biopsicoéticas (cf. MIRANDA. D.M.C, Incursão: um lampejo da realidade. São Paulo: Linguagem Editora, 2002).

O que compreendo como revolucionário hoje é exatamente ser o mais simples possível, tão simples como a ‘pérola’, de Camelo Ponte, na educação, ou o seu “Abraço Interdisciplinar Biopsicoético” proposto em uma Jornada Pedagógica em Natal, em 2009, para aproximadamente 500 mantenedores e professores de um sistema de ensino do sul do País.

A proposta do “abraço biopsicoético” é, segundo o professor Camelo Ponte, encontrar “no outro” a pérola que esse “outro” é e ascender nessa parceria do abraço interdisciplinar em ideias, pensamentos e atos em sintonia, harmonia e equilíbrio com o mundo local, regional e global, conscientes do contexto de ensino-aprendizagem com foco na identidade, ética, contexto biopsicoético e consciência de mundo (PONTE, 1975).

Essa metáfora da pérola na educação cabe bem na crise que o Ceará vive na construção do conhecimento, aliás, como o Brasil organiza o conhecimento (epistemologia), como se a ciência pudesse ser loteada ao bel-prazer dos interesses comerciais, ignorando completamente o ser humano dos direitos e parcerias dessas descobertas. É importante a diferença das pérolas, assim como é importante perceber que “o ‘igual’ é diferente em algum ponto da realidade”.

Esses elementos da realidade deixam claro que a verdade manifesta, ao longo do tempo, resultados catastróficos para as sociedades. Proponho que olhemos a opressão inconsequente em nome da paz, da igualdade e dos direitos humanos. “Removem uma pedra dos braços dos oprimidos e colocam um rochedo sobre os ombros dos incautos”. Então pensamos, de que natureza é esse exercício de liberdade?! E essa liberdade é a mesma que contribui para que uma manifestação de descontentamento se transforme em prejuízo sem medida com uma greve na educação por mais de cinquenta dias, o que onera as gerações futuras em tal monta que será impossível, inimaginável, recuperar a própria vida de um obscuro caos de interesse partidário.

Quais experiências vivenciarão como resultado dessa performance?

“As gotas caem,

elas têm que cair,

impactando com pedras,

perfurando rochas,

que exibem a penúria e o abandono”.

Pois assim estamos diante dessa ausência de sensibilidade que reconheça a educação como a atitude mais importante de nossa sociedade. Uma educação sem cultura da própria educação?!

O Estado do Ceará pode e sabe apreender de sua natureza e de suas aspirações, é um povo que exercita com dignidade o direito de expressão, é um povo que comunga no silêncio seu espanto, suas desilusões, mas é também um povo que sonha, um sonho inteiro em sua plenitude, parafraseando Camelo Ponte.

 

III

Ora, estou falando de cultura e educação (claro, na minha perspectiva) e, na internet, ninguém lê mesmo, posso falar a verdade, quem vai ligar? Afinal, uma greve dessa magnitude é cultura para ninguém botar defeito, opa (!!!), uma greve dessa magnitude é educação para ninguém botar defeito!

Essa greve que tanto nos preocupa exige uma aproximação sem partidos, sem fatias de bolos, exige que as comunidades se reencontrem, dialoguem e pratiquemos um exercício de ensino-aprendizagem, de leitura e escrita de mundo, de afirmação de sujeito no mundo, em conformidade com os pilares biopsicoéticos citados no início. É preciso dialogar, contribuir para que a pérola possa ascender não só no outro, mas em um lugar certo, no coração do outro. Uma outra pérola, “um outro” capaz de pensar e refletir sobre o “Bom”, o “Belo”, e o “Bem” em âmbito local, regional e global como exige o novo tempo. E um novo tempo exige uma relação mais aberta, sincera e com todos os seus paradoxos. Pensamos que essa relação com a comunidade, alunos, pais e entorno escolar poderá conseguir modificar o próprio curso do caminho, ora inseguro e repleto de insatisfações, descontroles e, até mesmo, um cadafalso.

Quando cultura e educação & educação e cultura são pensadas a partir de um mesmo ideal, o ideal comum, respeitando-se todas as diferenças, o direito de expressão (ainda é preciso que frisemos isso), é possível edificar um projeto que possa contemplar esses dois universos indivisíveis, e trabalhar com sinergia, interação, sem prejuízo da sociedade como um todo.

De onde devemos partir para construir um projeto de cultura e educação e de educação da cultura da educação?!

É tão simples quanto o nascer do sol, quantos percebem que sua luz é que dá o norte para todos os dias, que mostra o caminho indistintamente, independentemente do sonho ou da ilusão de cada um de nós. Essa é a verdade. A realidade é que a maioria de nós não percebe sequer que o sol existe e, nisso, Ponte é incisivo quando propõe uma leitura à outra margem da palavra, quando propõe que tenhamos uma visão inversa a partir do nosso ponto de chegada, que possamos ouvir o silêncio a partir do som que se oculta no coração do outro, que somemos nossa poesia à realidade e a verdade da poesia da vida do outro; dessa forma, afirma, o projeto não será só uma ideia solitária e passível de modificações e transformações, mas o resultado de uma parceria incontestável na qual é possível mensurar a contribuição de cada um em sua identidade, ética, contexto biopsicoético e consciência de mundo. Será possível que todos leiam, escutem, pensem, ouçam, falem, reflitam, olhem e vejam a seara de seus próprios labores, pérolas ao sol.

 

IV

Já que o verbo pressupõe ação, estamos assim divagando por divagar até que surja uma ideia? Pois não poderão dizer que não tentamos melhorar, mudar, trabalhar, propor, encetar algo que possa ser o diferencial em algum momento da vida daqueles que estão próximos e, até distantes, por que não? Afinal, a pérola se constrói a partir desse exercício “interior x exterior”, “Eu x Tu”, “Nós”, conscientes de que a ciência é muito mais que informação, fórmula, método, metodologia, didática e ensino-aprendizagem é o próprio homem em ideias, pensamentos e atos. Sem nos esquecermos da ética, valores e competências que constituem essa metáfora, afirma o professor.

Diante dessa correnteza sem tempo, uma ideia fecundou o pensamento, e, depois de quase dois anos surgiu “A outra margem da palavra” como prática para a cultura da educação e como exercício para a educação da cultura. É uma seara onde as disciplinas tocam-se, modelam-se, cruzam-se, transformam-se em linguagens multifárias, da imagem à letra, da letra à palavra, da palavra à frase, da frase ao parágrafo, do parágrafo ao texto, do texto à imagem, da imagem à reflexão, da reflexão à música, da música à interação com o mundo, do mundo à consciência de mundo, da consciência de mundo o seu constructo sociolinguístico, histórico, geográfico e humano.

“40 Anos de Prisma Errante” tem esse exercício de redesenhar os caminhos percorridos pelo ser humano e em comunhão sempre com outras propostas, revalidando cores, movimentos, ideias, pensamentos, atitudes diante da vida no presente do presente para o presente do futuro.

Nesse contexto, “A outra margem da palavra” surge para dar sentido à razão e propor um espaço/tempo/ação fora das produções importadas, copiadas, encomendadas e viciadas pela falta de respeito a quem exercita a educação e a cultura no Brasil.

Eduardo Candido Gomes

Sem Título

Meu coração chora,

como hoje chora a Pauliceia,

envolta em denso

manto

carregado por

desastres

ou por

salvação…

Meu coração chora,

não

pela distância,

mas por não mais

senti-la;

chora anestesiado

pelo gélido

descaso

de sua inoperância.

A solidão de suas lágrimas

vertem, por sangrias

desconjuntas,

de beija-flor que

sacia a sede

em cactos

desajustados,

no vazio

de mim,

irrigando

densos estreitos,

com dor.

Seus prantos

não são de culpa,

mas de medo…

medo de

testemunhar

o início

do fim…

 Medo de perceber

que a beleza

e a jovialidade

de outrora

retomaram seu posto

no autorretrato,

e foram

subtraídas,

pelo tempo,

das células,

que os sorrisos

fraternos

já não mais são dados,

que os amores,

puros,

são concebidos

em lençóis

sem nomes…

Fendas abertas,

consumidas

para serem

limpas

antes de

cicatrizadas…

nos reconstruímos

em nós mesmos,

em nossas fraquezas,

em nossas dores…

dores

causadas

pela infidelidade

a que nos permitimos,

ao violentarmos nossos

pontos de vista,

em detrimento de

alguém.

Hoje vejo

que não sou um mero

bibelô

para ser exposto

em sua sala

de estar…

Seu descaso

fortificou-me,

desenvolveu

escudos que me tornam

impenetrável,

salvaguardam

os sentimentos…

Hoje

“resisto a tudo,

menos às

tentações”.

 

Eduardo Candido Gomes

Primaveras

Vivo de lembranças isoladas,

de flores de plástico,

surpreendidas

no baixo augusta,

vivo de acenos não recíprocos,

em meio a multidões

que devoram sinaleiras

às seis da tarde,

vivo de beijos jamais dados

em bocas nuas…

beijos ausentes,

de enamorados distantes

que se alimentam

da memória.

 

Beijos e memórias

rubras

por humores desvelados

em saborosas tardes

desfrutadas

nos jardins

da Casa das Rosas,

por desejos

mantidos em cárcere

enquanto o reencontro

mostra-se impossível,

por vigores

de coração pulsante

com força e ritmo

de bate-estacas…

rubras

por amores construídos

a cada olhar,

a cada sorriso,

a cada bebida degustada no

charmoso café

da Pinacoteca do Estado,

por amores vividos

a cada segundo,

e por seus segredos

repletos de aromas ainda

desconhecidos.

 

Há tempos

não vejo o sol,

não escuto os duetos,

os trios,

os quartetos

que se apresentam

ao amanhecer.

 

Há tempos

cometas não cruzam

meu caminho,

estrelas não brilham

em minha janela

não brinco com as nuvens.

 

Há tempos

não aprecio ao baile

das jangadas

que chegam e que partem,

ao gingado das tarrafas

à beira-mar.

 

Há tempos

meu coração dança

estático!

 

Degusto, contudo,

primaveras ocultas

nas paletas de

Van Gogh,

sinfonias

compostas nos vãos do Masp

que nos tocam

caladas,

tanguarás imaginários,

privados de suas habilidades,

em decorrência de

ébanos ciclos

de clausura.

 

Degusto, contudo,

as nuances e

complexidades

que formam

a mim

mesmo.

 

Eduardo Candido Gomes