Arquivo do mês: agosto 2012

Inviolado

Terça-feira.

Acordei atrasado para um compromisso que esperava há semanas, cuja importância fez com que eu não pregasse os olhos até às quatro da manhã. Receava perder-me por entre devaneios e de fato me perdi. Talvez tivesse sido melhor não dormir de forma alguma, talvez tivesse sido melhor passar a noite cuidando de meus afazeres até que o primeiro raio da manhã desvirginasse o breu que me abraçava. A verdade, pois, é que jamais saberei.

Apressado, vesti-me com o que encontrei pela frente e corri – o pão permaneceu inviolado sobre a mesa – corri a ponto de perder o folego para ganhar o tempo, mas o perdi, e enquanto aguardava pelo próximo ônibus, já que o anterior partira antes de minha chegada, olhava insistente para o relógio, desejando que trabalhasse com menos afinco, contudo seus ponteiros, como que a zombar de minha desgraça, avançavam, avassaladores, e em ritmo inversamente proporcional ao do transporte que eu, ansioso e ainda mais atrasado, continuava aguardando para pegar.  – Vou de metrô, deve ser mais rápido, já são oito e meia e, mas e se eu sair do ponto e o ônibus passar? Vou perder mais tempo… Não, ficarei. Afinal já estou aqui, é mais seguro ficar! Vou Ficar! – alguns minutos mais se passaram – Graças a Deus, o 857 serve. – dei sinal e subi os degraus da porta dianteira um pouco mais aliviado – Bom Dia! – disse ao motorista, um senhor de cabelos brancos, cuja idade deveria beirar o setenta e alguns, já arqueado pelo tempo de trabalho à frente daquela máquina azul e branca, que me respondeu com a voz um pouco rouca – Bom Dia, cavalheiro! –. Sentei-me na segunda fileira de poltronas após a catraca, no assento da janela que era um dos poucos que restavam vagos, e inconscientemente me ocupei a analisar o trânsito. Confesso que minhas mãos suavam de nervoso, mas o caminho, para minha surpresa, estava pouco congestionado, entretanto, cheguei ao meu destino trinta e cinco minutos após o combinado – a rua é essa, qual o número? Onde está o papel com o número? Tenho certeza que o guardei dentro da agenda… – abri minha pasta, e comecei a procurá-lo, contudo não o encontrava, tampouco encontrava a agenda onde este estaria e meu desespero voou em loopings – por favor, senhora, saberia dizer-me onde fica a Byrne & Siam Advogados? – infelizmente ela também não sabia, – senhor, por favor, sabe onde fica a Byrne & Siam Advogados? – quando este esboçava sinalizar-me negativamente com a cabeça um jovem rapaz de vinte e poucos anos, acredito eu, que trabalhava em uma pequenina banca de jornal em frente ao ponto em que desci o interrompeu – a Byrne fica no número 245, é o terceiro prédio à esquerda – virei-me apressado e com um aceno agradeci pela gentileza.

– Bom dia. Vou à Byrne & Siam Advo…

– Tem cadastro? Perguntou-me uma recepcionista, que lixava as unhas, cujo nome não decifrei, vi, contudo, que continha excessivos ípsilons e outras consoantes dobradas.

– Receio não tê-lo…

– Documento com foto! – Ordenou-me ainda lixando as unhas e sem olhar em minha direção enquanto dava ouvidos e sorrisos satisfeitos aos gracejos ditos por um segurança que estava do lado oposto do balcão. – Pegue o elevador da direta e suba até o quinto andar –.

Agradeci um tanto encabulado com seu comportamento, digamos exótico, e entrei no elevador indicado que estava estacionado no térreo. Pressionei o botão e enquanto este se deslocava para entregar-me a meu destino, tentava, a todo custo e com o auxilio do espelho, me ajeitar em meus trajes amarrotados. A porta se abriu e não acreditei que teria de enfrentar uma nova recepcionista para conseguir falar com quem marcara – minha experiência não havia sido das melhores há poucos instantes –.

 – Por favor, tenho uma reunião marcada com a Sra. Lígia Siam, poderia avisá-la que estou aqui? – esta, um pouco mais cordial que a anterior, solicitou-me um minuto dizendo que anunciaria minha chegada. Enquanto esperava na confortável antessala, cujas paredes, elegantes, eram forradas com discretos papéis de parede sofisticadamente texturizados, saciei a sede que me ardia com dois copos d’água. – Sinto muito, senhor! – disse a recepcionista ao retornar, – Infelizmente a Dona Lígia teve um pequeno problema particular e não virá trabalhar hoje. Marta, sua secretária, disse que lhe telefonou para avisá-lo, mas não conseguiu falar contigo; aparentemente o telefone estava fora de área de cobertura. A orientação que recebi foi para que o senhor tente um novo contato na próxima semana. Ainda segundo a Marta, a Dona Lígia estará aqui no dia dezessete. – O mundo desabou sobre minha cabeça. Aguardava por aquele encontro, pois nele receberia orientações legais cruciais para o desenvolvimento de meu projeto, cujos prazos, enxutos, me pressionavam a cada dia – Mas será que não há outra pessoa com quem eu possa falar? – expliquei o motivo de minha urgência, todavia meus esforços foram em vão – Esse assunto deve ser tratado, de fato, com a Dona Lígia – argumentou a recepcionista, – contudo ela viajará amanhã e voltará apenas na próxima quarta-feira, provavelmente no fim do dia. Sinto muito senhor! – Sai decepcionado comigo por não conseguir resolver às pendências a que havia me proposto, ainda mais depois de tudo que havia passado para chegar até ali, e também com a falta de respeito a qual fui vitima mediante aquela confusão.

Ao deixar o prédio notei uma fina garoa que cobria as ruas tornando aquele momento ainda mais depressivo, o asfalto levemente umedecido e o céu cinza escuro davam ares de fim de tarde para o dia que a pouco começara. A brisa que vez ou outra brincava em ser ventania trazia além de jornais órfãos e uma temperatura pouco usual à cidade, beirando os treze graus, novas essências, novos pensamentos; talvez aquela brisa ou ventania trouxesse, nesse dia estranho, novos paradigmas. Caminhei por alguns instantes até chegar ao ponto de ônibus; encostei-me a barra que sustentava sua cobertura enquanto pensava em uma forma de não deixar com que o tempo, quer dizer, a falta dele, me torturasse. Não podia aceitar perder uma semana de meu prazo aguardando pela volta da advogada, tinha de utilizá-lo para dar prosseguimento a outros temas que não dependessem das tais orientações. – É isso, está definido! – tocaria o projeto dentro de minhas possibilidades. Enquanto costuro meus pensamentos, pessoas chegam e partem do mesmo ponto em que estou. Apartado do grupo que se protegia dos delgados aljôfares que precipitavam do firmamento, vejo agonizando, a alguns passos de distância, uma barata, cujas patas, voltadas para cima, ainda se moviam, mesmo que lentamente.

Sinto-me estranho. Aquela cena me incomoda. Penso que deveria coloca-la em sua posição natural para que tivesse a chance de viver, mas desvio o olhar. Desejava não tê-la visto para não ter sobre mim a culpa de sua morte, para não carrega-la, por minha vida, diante de minha passividade em salvá-la. O que pensariam os demais, que ali estavam, se tivessem visto que eu a virara? Olho-a novamente e volto a desviar o olhar, porém já é tarde. Carrego o pecado em mim. Seria eu cumplice desse crime? Seria eu julgado por ele? Seria eu condenado por ele, visto que deixei, podendo interceder, que uma vida terminasse? Mesmo essa sendo a vida de uma barata? E por ser de uma barata torna-se menos importante?

Um novo ônibus chega, o meu ônibus. Pelo visto todos ali esperávamos pelo mesmo destino. Deixo com que subam os demais passageiros e recuo aguardando por minha vez de embarcar. O motorista me encara e aceno negativamente com a cabeça, ele, então, fecha a porta e parte. Permaneço ali, por minha consciência, por não desejar viver em meio a angústias. Parece tolo e porque não dizer nojento, e acredito que muitos se perguntariam – ora, por que ficar ali por aquele animal? – e eu me pergunto – em que ele se difere, em essência de vida, de um belo cão? –. Procuro por um objeto qualquer que possa invertê-lo de posição e encontro um palito de sorvetes descartado no meio-fio; abaixo-me olhando atentamente para certificar-me de que ninguém se aproxima e o toco, suas patas movimentam-se assim como sua antena, contudo não o viro. Tento novamente e dessa vez obtenho êxito, porém ao postar-se sobre o chão cessam os movimentos de seu corpo. Afasto-me e o observo. Nada. Será que demorei? Será que morreu por meus medos perante a preocupação, descabida naquele momento decisivo, sobre o que pensariam os demais? Será que estaria vivo se o tivesse virado quando o vi pela primeira vez? Será que os movimentos que presenciei eram seus últimos espasmos e na verdade ali já estava morto? A verdade, pois, é que jamais saberei. O observo por longo tempo e permanece estático. Não o salvei. Seu corpo começa a ser consumido por famintas formigas que surgem de um pequeno arbusto contiguo ao ponto de ônibus e eu ainda estou ali, a velar seu cadáver enquanto é devorado.

A garoa cessa e decido caminhar, pelo menos até que meus pensamentos se acalmem e retomem seus lugares. Estou confuso e um tanto quanto perplexo com o que presenciei e com os sentimentos que afloraram em mim. Meus caminhos estão desertos, evito, pois, as vias principais que geralmente apresentam, nesse horário, um tráfego intenso de automóveis e de transeuntes. Nesse momento prefiro a solidão. Nesse momento sou feliz cercado por ela. Desejo remoer comigo aquela morte e entende-la. Quero compreender o que acontece aqui, nas ruas, nas esquinas, sob as marquises do abandono; sinto o descaso das baratas nessa cidade. Vejo, diariamente, em suas vias, suas vitimas sendo corroídas pela fome, pelo frio, pela indiferença de indivíduos que olham com desprezo para corpos lânguidos, sem identidade – jogados pelas sarjetas – e que por não a terem, deixaram, a muito, de serem tratados com deferência, de serem tratados como seres vivos, de terem direito à vida. Vejo, diariamente, em suas vias, o desrespeito e não gosto. Pergunto-me se o mesmo aconteceria na sociedade de baratas.

 

Eduardo Candido Gomes

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