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Falsa Liberdade

Sinto-me preso.

Estou preso, de fato.

Preso em mim!

A verdade, pois, é que me sinto isolado na gélida masmorra, esculpida em meu âmago, há dias, tantos, que me impedem a lembrança de sentir-me salvo. Sinto-me encarcerado em minhas convicções, encarcerado em meus medos, nas projeções independentes feitas para minha vida e nas expectativas que eu mesmo crio sobre ela; cumpro a pena imposta, quiçá, para que pena tenham de mim.

Sinto-me um covarde.

Aspiro à dúvida sobre meus medos, mesmo certo de suas origens, e faço, ainda que, porventura, saiba resolvê-los. Evito-os. Não desejo enfrentá-los, não nesse momento. Talvez esteja enfermo! Talvez precise ser tratado… – certa vez conheci uma mulher que se viciara na água do mar, sentia prazer, quase sexual, pelo ardor do sal lhe corroendo o esôfago. Curou-se com sessões de eletrochoque. Doze, se não me engano. Perdeu, contudo, o apetite pela vida –, entretanto, sob quais preceitos submeter-me-ia a semelhantes analises? Quais distúrbios me afligem? É a insegurança um distúrbio?

Sinto-me um Homem obliquo.

Respiro tardes nebulosas; desejo, contudo, inspirar extremos e expirar pavor, desejo sentir, trêmulo, à estrídula brisa que envolve meu corpo nu, desejo viver as verdadeiras cores do mundo, desejo beijar os lábios de Deus e sugar-lhe o néctar da eternidade, mas temo. Temo dedicar-me a decisões equivocadas, que machuquem àqueles a quem amo; não me importo com minha dor nesse momento, já a tenho, afinal. Penso, pois, no estrago que as mutações de meu exíguo amor possam lhes provocar. Sábias ou não, serão equivocadas se tomadas ou se continuarem amarrotadas em meu peito? Não sei. Sei, contudo que causam, em mim, o efeito de mil mordaças, sei que me sufocam.

Hoje passei pelos minutos, por todos eles, querendo gritar, é possível que fosse um brado de liberdade, ou apenas a necessidade de extravasar essa euforia ou medo, contidos. Ouvir a própria voz a desvirginar o silêncio pode ser uma experiência interessante, mas, nesse dia angustiante, o silêncio me falta, a solidão em sua essência também está ausente, tenho-a acompanhada. – hei de dizer que essa é a sua pior faceta, pois talha a carne sem marcas aparentes –. Escrevo em estado letárgico, sem dar-me conta das palavras derramadas nas fibras; a tinta se espalha criando borrões, conteúdos confusos, vomitados em sequencias, sem nexo, que meu coração ordena.

Sou vitima da automedicação.

Trato-me com doses cavalares de Bourbon, sem água, e com gelo, uma pedra apenas, solitária como eu; nado de braçadas em seus tonéis de carvalho – afogo-me neles, na verdade –; deixo por lá as minhas dores, que envasadas, em elegantes garrafas, farão companhia a outros angustiados. Hoje meu trago não foi consumido, pensei em sorvê-lo, mas não o fiz. A garrafa permanece inviolada sobre o móvel, assim como o copo se mantem estático esperando para cumprir seu destino. Nesse momento escuto a “nona” de Beethoven. O coral em primeiro plano se posta imponente, canta uma miscelânea de agudos e de graves, enquanto a sinfonia, ao fundo, é regida com maestria. Vejo em semelhantes melodias o quão bela pode ser a vida; não a minha! Sobre a mesa, uma caixa de madeira trabalhada a mão abriga meu destino, devasso-a com a calma que apenas o desespero pode fornecer. Chego à conclusão que, ao contrário dos instantes que me fazem viver um presente amargo, este pode ser lindo.

“As quatro estações” de Vivaldi surge na sequencia em um ritmo hipnótico, é, pois, interrompida por um estampido. Terei um novo inicio ou, durante essa primavera deslocada, tive meu fim.

Eduardo Candido Gomes

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