Esperança

Hoje a esperança resvalou-me a cabeça e repousou em meu peito.

Era verde!

O tempo parou e vi, como espectador de mim, um presente não mais amargo. O breu que me ocultava sucumbiu ao sol a pino que adornava o belo céu azul, sem nuvens, enquanto um colibri multicolorido retomava o folego num galho de acácia. Em pé, eu aguardava sendo parte entre tantos, todos ainda jovens carregando consigo seus medos, seus sonhos, suas dúvidas, todos revolucionários em seus princípios, em seus comportamentos, em suas linguagens; sentia-me, pois, especial, com um prazer incipiente, por desvelar a vida, naquele momento ordinário. Era minha primeira vez. Vencia, enfim. Destacava-me, ainda que calado.

Peguei-a com o cuidado de quem abraça à cria recém-parida, fitando-a. Sua essência remetia-me à infância, aos mimos de vó, ao cheiro de grama aparada, à terra vermelha dos campos de várzea agarrada aos devaneios de uma pátria. Sua consistência macia, como algodão doce, a tornara irresistível.

Levantei-a como quem brinda à fortuna, desejoso por mostrá-la a todos, gênese de meu poder. Sentia-me supremo – nesse momento, entretanto, sinto-me um tolo –, afinal de contas, semelhante influência nos envaidece e dela deriva nossa ruína – a decadência nos come por dentro –. Somos induzidos, por nosso excesso, à nossa fraqueza. Levantei-a e no auge de minha confiança a perdi, usurpada pela brisa traiçoeira do meio dia, ou pela densa soberba que me banhara; talvez por ambas.

Creio que esteja na tristeza a minha sina – gosto dela –; a felicidade é uma droga que cega, que ludibria. É da escuridão que vem o progresso, na dor que se descobre o amor – sua ventura está em seu sacrifício –, somente no silêncio fúnebre se pode ouvir a verdadeira essência – “no silêncio tão calado que mesmo uma pessoa morta ao lado quebraria” –. Somos mais sensíveis assim.

Se perguntares se tenho saudade, direi que sim, todavia vivo plenamente, envolto em meu habitual sentimento azul.

Eduardo Candido Gomes

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4 Respostas para “Esperança

  1. Obrigado, Matheus! Saudades também, cara!!!!

  2. Texto impressionante. No começo “lutei” que o sentimento de conquista, felicidade e esperança se mantivesse, torcendo que talvez eu pudesse ergue-lo como uma razão no meu “agora”. Mas aí, no fim a tristeza volta, com toda sua sina, e como sempre acaba conquistando mais forte o coração dos poetas. É difícil entender e julgar do que eu gosto mais. Me vejo sempre me alimentando da minha própria tristeza, até mesmo para buscar mais motivos e força. Mas agora, nesse agora, eu queria a felicidade, esperança, conforto e calma.

    Parabéns por mais um texto maravilhoso. Sua escrita é querida. Saudades de você.

  3. Nossa!!!! Emocionou-me profundamente a verdade que transmite esse texto e de uma forma sutil…Parbéns Eduardo.

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