Revolução com papel e lápis

I

O Ceará, um Estado com o segundo maior PIB da Região Nordeste, 45 bilhões de reais em números de 2010, é composto por 184 municípios, subdivididos em 839 distritos, cujas economias dependem predominantemente do setor de serviços, 70,9% do PIB, sendo seguido pelo setor de indústrias, 23,07% do PIB, e pelo setor agropecuário, 6,03% do PIB. Apresenta população da ordem de 8.448.055, de acordo com o último Censo, sendo 75,09% residentes em zonas urbanas, e 24,91% em zonas rurais.

No que tange à educação, o Ceará detém 12.746 instituições de ensino, municipal e estadual, distribuídas entre pré-escola, ensino fundamental, médio e superior, com corpo docente da ordem de 72.406 responsáveis pelo ensino de 3.956.120 estudantes na faixa etária entre 5 e 29 anos. Todavia, não obstante a elevada frequência escolar, da ordem de 99,4% para a faixa entre 6 e 14 anos, o percentual de habitantes com tempo de estudo igual ou superior a 15 anos é de 4,19%, muito aquém dos níveis ideais esperados para a educação de um membro federativo, cuja importância para a Região Nordeste é fundamental. Em termos de analfabetismo, a taxa se mantém assustadoramente elevada, chegando a 18,6% para pessoas com 15 anos, atingindo um nível ainda mais preocupante quando analisamos o analfabetismo funcional, que atinge incríveis 29,5% da população da mesma faixa etária, expondo, talvez, o método convencional de governos, que prezam pela abrangência em detrimento da qualidade do serviço prestado.

A história ensina que revoluções armadas, autoproclamadas “libertárias”, cujas alamedas, via de regra, levam sociedades inteiras a intermináveis guerras civis, dificilmente obtêm sucesso, alterando, de fato, estruturas, contudo mantendo a essência dos mecanismos concentradores.

Acredito que estejamos no momento ideal para refletir sobre novos caminhos (métodos e metodologias) para que possamos atravessar limites impostos ao desenvolvimento coletivo e do indivíduo da sociedade no século XXI. Precisamos sempre de algo novo para superar o que descobrimos no presente como prejudicial e ultrapassado em seu modus vivendi e operandis.

Esses caminhos, discernindo suas complexidades, métodos e metodologias, tornam viáveis os projetos que tenhamos tanto em nível pessoal, familiar e social, como em outras empreitadas mais exigentes no que tange a formação, informação e epistemologia. Por isso, para não ser vago ou raso em minhas ideias, nessa relação com o meu leitor, justifico meu embasamento com foco na Biopsicoética em seus pilares fundantes: “situacionalidades, intencionalidades e potencialidades” (cf. Ponte, 2002), assim poderemos perceber o homem em sua dinâmica, cultura e educação, presente-do-presente, presente-do-passado e presente-do-futuro. Essas vertentes “são pérolas” que o mar da vida nos oferece para o dia a dia, uma rotina sempre revivida, o que nos permite a ideia de reconstrução, revisão do nosso “Eu/Ser/Mundo”.

Pensamos nessas “dimensões de pérolas para abraçar o horizonte e poder delimitar, pela nossa condição de olhar e ver, ouvir e falar, pensar, refletir e agir na elaboração de um projeto, que seja cultural, educacional, coletivo ou pessoal” que serve como alavanca para abalar a mobilidade e mover a porta emperrada pelo caos; precisamos de tino pelo estudo e aprofundar nossa compreensão da verdade e da realidade para lidar com a complexidade vigente no século XXI.

Nesse sentido, aprender a lidar de modo especial com a rapidez da informação, que mutila a sociedade e exclui os incautos do arrojo das novas tecnologias, as quais não encontra o homem “pronto” nem a informação adequada para interagir de acordo com as exigências do mercado e a ética necessária às relações humanas no mundo, porque é pequeno demasiado dizermos em um país, “não estamos prontos”, “a sociedade não se interessa pelo coletivo”, “a escola é responsabilidade dos professores”, “o meu sistema educacional é o melhor”, “a minha moeda é a que vale” e outras tantas “certezas” tão caóticas quanto absurdas.

 

II

“Hoje, quando plantamos uma semente, semeamos para o mundo. Da mesma forma uma ‘ideia’ (inspiração), uma vez semeada no ‘pensamento’, constrói o ‘ato’, seu modus operandi no mundo” (PONTE, 1975).

Dessa forma, penso que essa reflexão pode ajudar-nos a desenhar uma travessia de rios sociais que permeiam nossa leitura de mundo para que tenhamos um parâmetro atual para construirmos algumas ideias sobre a necessidade de contextualizarmos “a educação da cultura e a cultura da educação da cultura” a partir de uma prática local, com atividades imbricadas, intertextuais, interdisciplinares, multidisciplinares, transdisciplinares, e biopsicoéticas (cf. MIRANDA. D.M.C, Incursão: um lampejo da realidade. São Paulo: Linguagem Editora, 2002).

O que compreendo como revolucionário hoje é exatamente ser o mais simples possível, tão simples como a ‘pérola’, de Camelo Ponte, na educação, ou o seu “Abraço Interdisciplinar Biopsicoético” proposto em uma Jornada Pedagógica em Natal, em 2009, para aproximadamente 500 mantenedores e professores de um sistema de ensino do sul do País.

A proposta do “abraço biopsicoético” é, segundo o professor Camelo Ponte, encontrar “no outro” a pérola que esse “outro” é e ascender nessa parceria do abraço interdisciplinar em ideias, pensamentos e atos em sintonia, harmonia e equilíbrio com o mundo local, regional e global, conscientes do contexto de ensino-aprendizagem com foco na identidade, ética, contexto biopsicoético e consciência de mundo (PONTE, 1975).

Essa metáfora da pérola na educação cabe bem na crise que o Ceará vive na construção do conhecimento, aliás, como o Brasil organiza o conhecimento (epistemologia), como se a ciência pudesse ser loteada ao bel-prazer dos interesses comerciais, ignorando completamente o ser humano dos direitos e parcerias dessas descobertas. É importante a diferença das pérolas, assim como é importante perceber que “o ‘igual’ é diferente em algum ponto da realidade”.

Esses elementos da realidade deixam claro que a verdade manifesta, ao longo do tempo, resultados catastróficos para as sociedades. Proponho que olhemos a opressão inconsequente em nome da paz, da igualdade e dos direitos humanos. “Removem uma pedra dos braços dos oprimidos e colocam um rochedo sobre os ombros dos incautos”. Então pensamos, de que natureza é esse exercício de liberdade?! E essa liberdade é a mesma que contribui para que uma manifestação de descontentamento se transforme em prejuízo sem medida com uma greve na educação por mais de cinquenta dias, o que onera as gerações futuras em tal monta que será impossível, inimaginável, recuperar a própria vida de um obscuro caos de interesse partidário.

Quais experiências vivenciarão como resultado dessa performance?

“As gotas caem,

elas têm que cair,

impactando com pedras,

perfurando rochas,

que exibem a penúria e o abandono”.

Pois assim estamos diante dessa ausência de sensibilidade que reconheça a educação como a atitude mais importante de nossa sociedade. Uma educação sem cultura da própria educação?!

O Estado do Ceará pode e sabe apreender de sua natureza e de suas aspirações, é um povo que exercita com dignidade o direito de expressão, é um povo que comunga no silêncio seu espanto, suas desilusões, mas é também um povo que sonha, um sonho inteiro em sua plenitude, parafraseando Camelo Ponte.

 

III

Ora, estou falando de cultura e educação (claro, na minha perspectiva) e, na internet, ninguém lê mesmo, posso falar a verdade, quem vai ligar? Afinal, uma greve dessa magnitude é cultura para ninguém botar defeito, opa (!!!), uma greve dessa magnitude é educação para ninguém botar defeito!

Essa greve que tanto nos preocupa exige uma aproximação sem partidos, sem fatias de bolos, exige que as comunidades se reencontrem, dialoguem e pratiquemos um exercício de ensino-aprendizagem, de leitura e escrita de mundo, de afirmação de sujeito no mundo, em conformidade com os pilares biopsicoéticos citados no início. É preciso dialogar, contribuir para que a pérola possa ascender não só no outro, mas em um lugar certo, no coração do outro. Uma outra pérola, “um outro” capaz de pensar e refletir sobre o “Bom”, o “Belo”, e o “Bem” em âmbito local, regional e global como exige o novo tempo. E um novo tempo exige uma relação mais aberta, sincera e com todos os seus paradoxos. Pensamos que essa relação com a comunidade, alunos, pais e entorno escolar poderá conseguir modificar o próprio curso do caminho, ora inseguro e repleto de insatisfações, descontroles e, até mesmo, um cadafalso.

Quando cultura e educação & educação e cultura são pensadas a partir de um mesmo ideal, o ideal comum, respeitando-se todas as diferenças, o direito de expressão (ainda é preciso que frisemos isso), é possível edificar um projeto que possa contemplar esses dois universos indivisíveis, e trabalhar com sinergia, interação, sem prejuízo da sociedade como um todo.

De onde devemos partir para construir um projeto de cultura e educação e de educação da cultura da educação?!

É tão simples quanto o nascer do sol, quantos percebem que sua luz é que dá o norte para todos os dias, que mostra o caminho indistintamente, independentemente do sonho ou da ilusão de cada um de nós. Essa é a verdade. A realidade é que a maioria de nós não percebe sequer que o sol existe e, nisso, Ponte é incisivo quando propõe uma leitura à outra margem da palavra, quando propõe que tenhamos uma visão inversa a partir do nosso ponto de chegada, que possamos ouvir o silêncio a partir do som que se oculta no coração do outro, que somemos nossa poesia à realidade e a verdade da poesia da vida do outro; dessa forma, afirma, o projeto não será só uma ideia solitária e passível de modificações e transformações, mas o resultado de uma parceria incontestável na qual é possível mensurar a contribuição de cada um em sua identidade, ética, contexto biopsicoético e consciência de mundo. Será possível que todos leiam, escutem, pensem, ouçam, falem, reflitam, olhem e vejam a seara de seus próprios labores, pérolas ao sol.

 

IV

Já que o verbo pressupõe ação, estamos assim divagando por divagar até que surja uma ideia? Pois não poderão dizer que não tentamos melhorar, mudar, trabalhar, propor, encetar algo que possa ser o diferencial em algum momento da vida daqueles que estão próximos e, até distantes, por que não? Afinal, a pérola se constrói a partir desse exercício “interior x exterior”, “Eu x Tu”, “Nós”, conscientes de que a ciência é muito mais que informação, fórmula, método, metodologia, didática e ensino-aprendizagem é o próprio homem em ideias, pensamentos e atos. Sem nos esquecermos da ética, valores e competências que constituem essa metáfora, afirma o professor.

Diante dessa correnteza sem tempo, uma ideia fecundou o pensamento, e, depois de quase dois anos surgiu “A outra margem da palavra” como prática para a cultura da educação e como exercício para a educação da cultura. É uma seara onde as disciplinas tocam-se, modelam-se, cruzam-se, transformam-se em linguagens multifárias, da imagem à letra, da letra à palavra, da palavra à frase, da frase ao parágrafo, do parágrafo ao texto, do texto à imagem, da imagem à reflexão, da reflexão à música, da música à interação com o mundo, do mundo à consciência de mundo, da consciência de mundo o seu constructo sociolinguístico, histórico, geográfico e humano.

“40 Anos de Prisma Errante” tem esse exercício de redesenhar os caminhos percorridos pelo ser humano e em comunhão sempre com outras propostas, revalidando cores, movimentos, ideias, pensamentos, atitudes diante da vida no presente do presente para o presente do futuro.

Nesse contexto, “A outra margem da palavra” surge para dar sentido à razão e propor um espaço/tempo/ação fora das produções importadas, copiadas, encomendadas e viciadas pela falta de respeito a quem exercita a educação e a cultura no Brasil.

Eduardo Candido Gomes

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