Primaveras

Vivo de lembranças isoladas,

de flores de plástico,

surpreendidas

no baixo augusta,

vivo de acenos não recíprocos,

em meio a multidões

que devoram sinaleiras

às seis da tarde,

vivo de beijos jamais dados

em bocas nuas…

beijos ausentes,

de enamorados distantes

que se alimentam

da memória.

 

Beijos e memórias

rubras

por humores desvelados

em saborosas tardes

desfrutadas

nos jardins

da Casa das Rosas,

por desejos

mantidos em cárcere

enquanto o reencontro

mostra-se impossível,

por vigores

de coração pulsante

com força e ritmo

de bate-estacas…

rubras

por amores construídos

a cada olhar,

a cada sorriso,

a cada bebida degustada no

charmoso café

da Pinacoteca do Estado,

por amores vividos

a cada segundo,

e por seus segredos

repletos de aromas ainda

desconhecidos.

 

Há tempos

não vejo o sol,

não escuto os duetos,

os trios,

os quartetos

que se apresentam

ao amanhecer.

 

Há tempos

cometas não cruzam

meu caminho,

estrelas não brilham

em minha janela

não brinco com as nuvens.

 

Há tempos

não aprecio ao baile

das jangadas

que chegam e que partem,

ao gingado das tarrafas

à beira-mar.

 

Há tempos

meu coração dança

estático!

 

Degusto, contudo,

primaveras ocultas

nas paletas de

Van Gogh,

sinfonias

compostas nos vãos do Masp

que nos tocam

caladas,

tanguarás imaginários,

privados de suas habilidades,

em decorrência de

ébanos ciclos

de clausura.

 

Degusto, contudo,

as nuances e

complexidades

que formam

a mim

mesmo.

 

Eduardo Candido Gomes

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