Circo sem pão

Em A Política, Aristóteles diz que é na República que o cidadão governa e pode ser governado, criando os mecanismos que permitirão reduzir as desigualdades. Todavia, não raros são os casos em que a população brasileira defronta-se com práticas e denúncias de corrupção em suas mais distintas vertentes, passando pelo esporte, pela educação, pela agricultura, pelo turismo, pela fazenda (…), transitando do macro ao micro em ritmos frequentes nas camadas alta, média e baixa.

O volume de escândalos sucessivos, cada vez mais à luz do dia, cujos autores permanecem impunes, anestesia-nos quando deveria indignar-nos, tornando-nos passivos frente à audácia daqueles que os praticam. O corporativismo corrupto, que não julga nem pune para também não ser acuado, mancha a imagem do país, que almeja posição de destaque nas relações internacionais, entretanto consegue, ao máximo, ser manchete de páginas policiais nos grandes centros, cujos títulos em letras garrafais expõem mensalões, cuecões, superfaturamentos, venda de cargos públicos, assassinatos, milícias, etc.

Há de repensarmos nossos caminhos, nossa organização social e o modelo de cobrança dos homens públicos que representam, em grande parte, nada além deles mesmos, através de interesses pessoais e partidários. A vergonha deveria estar estampada na face de cada brasileiro que trabalha por um país justo, mas se conforma que isso seja suficiente; mobiliza-se em marchas pela maconha e subjuga direitos iguais independentemente de raça, credo, orientação sexual, toma as ruas em prol de meia-entrada em teatros, mas não por melhor qualidade de ensino público, protesta contra técnicos que acumulam derrotas, contudo aceita ser atendido em hospitais precários de leitos expostos em passarelas.

Manifestamo-nos em festas e paradas em que 90% dos presentes sequer sabem por que estão ali e quais são os reais motivos daqueles movimentos, paralisamos cidades por temas inócuos e cada vez mais segmentamos uma população que deveria ser única, a brasileira, que por sua vez encontra-se escondida, receosa de enfrentar seus próprios erros de julgamento.

Os púlpitos têm-se tornado espaços ingratos em que mentiras são ditas enquanto as lágrimas, de “sofrimento”, escorrem pelos olhos tristes dos “injustiçados”, em performances dignas de estatuetas, leões, ursos (…); os votos secretos e as particularidades dos regimentos ocultam os lobos que podem ainda administrar suas fantasias enquanto engendram, até a próxima crise, ideias mirabolantes para desvios no erário público.

Assistir à deputada federal pelo Distrito Federal, Jaqueline Roriz, citar Padre Antônio Vieira, enquanto declarava-se inocente e perseguida pelos meios de comunicação, apesar do vídeo explícito em que recebe recursos escusos por apoios políticos, fez-me ver que esse é o resultado do descaso com que vamos às urnas quando temos o poder democrático para dizer BASTA! e votos de protesto semelhantes aos dados a Tiririca e outras subcelebridades que puxam consigo, ao Congresso Nacional, a câmaras estaduais e municipais, outros tantos, muitos dos quais fichas-sujas, não é a saída.

Enquanto assistimos aos movimentos, chileno e espanhol, que lutam por melhores condições de educação e de trabalho, observamos imóveis, as sangrias pretéritas e as que ainda virão, em nossos quintais.

 

Eduardo Candido Gomes

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7 Respostas para “Circo sem pão

  1. Amanda, não entendi. O que deixa de excluir o que?

  2. Acho que uma coisa nao exclui a outra.

  3. Esse é o ponto crucial em tudo no Brasil. A quem interessa que o conhecimento seja difundido? Entender esse paradigma é entender o que foi e o que é a política brasileira nesses 512 anos que cá estamos.

  4. Raul,

    Partilho da ideia de que o progresso, por mais lento que seja, deva ser celebrado, entretanto acredito que a população precisa ser educada para que tenha a consciência necessária da importância que tem nas mãos no momento em que vota e essa educação, ao que tudo indica, não é conveniente à elite politica e/ou social do país. Assim, faz-se necessário estudarmos, digo, todos aqueles que aspiram por tais mudanças, quais os melhores meios para viabilizarmos a democratização do conhecimento.

  5. Mas Eduardo, eu acredito que está havendo um progressivo avanço na conscientização por parte da população no que diz respeito à necessidade de mudança na forma como se faz política no Brasil. A alta popularidade da presidenta (e faxineira) Dilma reflete isso. Lógico que ainda falta muito para atingirmos o objetivo de ter uma sociedade mais consciente do seu papel. Mas um milimetro que faça a linha do consenso se mover positivamente já motivo para celebrar!

  6. A preocupação que demonstram com seus feudos politicos, em inumeros casos, é superior a dada aos bens públicos, e o foco desses “lideres” está em privatizar e personificar, ilegalmente, esses recursos.

  7. Se a classe política se preocupasse em trabalhar pelo país em vez de seus partidos, conheceríamos a verdadeira democracia.

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